Oct 28, 2008

Sobre como nunca desistiremos de falar de amor.


Por que o amor não é o suficiente?



Porque as pessoas não estão prontas, maduras o bastante para o sublime, embora seu amor esteja em flor, ou em fruto carnudo e doce, esteja em forma e pleno. Não é sempre que o coração está pronto, que o corpo está pronto, mas, especialmente, que a mente está pronta para amar. Porque amar é sempre demais e é sempre tudo. Mas agrega tantos extremos, tantas facetas e tantos sentimentos, que se torna difícil e dolorido. Mesmo – já sabemos décor e salteado - o ódio, é uma rasgada e ardente versão do amor. A coroa da cara, mas a mesma moeda. O que não é amor, é só apatia e indiferença. O que não é amor é nada.



O amor não é o suficiente porque ele não é humano, enquanto nós somos e por demais. E fracos por isso. E tolos por isso. E facilmente corruptíveis por isso. E certamente ludibriáveis por isso. E tempestivos por isso. E herméticos por isso. Humanos, sim, demasiado humanos. O amor não é gente, não é cor, nem bicho, nem concreto, nem abstrato. O amor é demais para os humanos.


O amor se basta, se sustenta. É como a energia que não se perde. Que se propaga. Que se transforma. Isso: amor-energia. Amor é como luz. Calor e luz. Nós estamos no escuro. Agarramo-nos à luz que, em alguns feixes certeiros, entra em nossa caverna. Mas não podemos pegar a luz, tateá-la, guarda-la conosco. Ela segue seu destino por si em reflexão, refração, difusão. O que podemos é apenas sentir seu reflexo. Tentarmos não sermos opacos. A melhor metáfora pra amor: é como luz. Auto-suficiente por si. Mas não, não é o suficiente. Não pra gente.


Como eles, que se amavam, mas não se entendiam. Um casal. Enquanto seu amor crescia monumentalmente, seus egos, seus anseios e sua carga dramaticamente pessoal se distanciavam. Não se entendiam. Quando ele queria dizer alguma coisa, ela compreendia absolutamente o contrário. E vice-versa. Não era por birra, ou má-vontade. Por mais que falassem o mesmo idioma, a mesma língua – e até o vocabulário se parecia – era como se estivessem falando um em aramaico e o outro em latim. Eram humanos. Ele e ela, com tanto amor e tanta semelhança, não conseguiam se entender. Queriam dizer: “- Eu te amo!”, “- Estou com medo disso tudo.”, “- Não podemos nos perder!”. Mas o que saía de seus lábios era, na verdade: “Lá vem você com sua grosseria!”, “- Como você pode ser tão infantil?”, “- Viu, vai dar piti de novo!”


E enquanto isso, a luz entrava pela janela e não encontrava onde irradiar. A sala era opaca. Ficaram os dois no escuro. Cada um tateando a mobília, caminhando rente a parede, clamando por uma chaminha fraca que desfizesse tal breu. Uma vela, talvez. Um amanhecer que não veio. Ficaram na escuridão. E nunca mais sentiram a mão de um na do outro, como eles gostavam de fazer quando o dia ainda era claro.

Oct 19, 2008

sobre um verão.

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Era verão e eu ainda tinha uns quatorze anos. Havia muitos outros verões que não íamos à praia, mas naquele ano sobrou um dinheirinho e minha família decidiu que também poderia torrar suas carnes esbranquiçadas no litoral. E o local escolhido para aqueles esperados quinze dias de paz praiana e paradisíaca, diversão, farofada e descanso foi, justamente, a ilha em que agora moro.A diferença é que nem mesmo na costa é verão o ano inteiro.

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Eu me lembro ainda de quando chegamos de viagem. De como era difícil esticar as pernas que ficaram dez horas restritas ao pequeno espaço não ocupado pela bagagem que hiperlotava o carro. Mas de como fui ágil pra poder correr pro mar, poder sentir suas ondas, seu salgado e seu gelado. Aquela vida estranha que nos fagocita entre onda e maré, quando nos tornamos parte de algo que não tem fim nem diante dos olhos. Eu vinha do interior, não perderia um segundo. Só o tempo de vestir o biquíni.

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Mas eu lembro também que toda a alegria ansiosa que eu trouxe comigo na viagem ao longo dos primeiros dias foi se esvaindo até se tornar uma espécie de angústia. Eu tinha quatorze anos e morava no interior, ainda estava, de certa forma, incólume a todos esses contrastes e atordoamentos da vida. E de repente, vi-me diante dela: a ostentação. No norte da ilha, os turistas gastam. Os camarões no bafo e as fortunas no barzinho beira-mar. Todo mundo bem espichado em cadeira confortável comprando quinquilharias compulsivamente.


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Eu enxergava mais, com mais nitidez e vísceras, em contrapartida, aquele outro lado tímido e pobre que também torrava no sol, mas não por vontade. Talvez eles também quisessem água fresca, eu via isso, sentia-lhes a sede do corpo e da garganta. Eles sobreviviam, vendendo as quinquilharias. Crianças e senhoras, homens de todas as idades caminhando exaustivamente, ganhando trocados com churros, ou picolés, ou queijos assados, ou brinquinhos e panos de prato.

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No final das férias latejava em mim uma dor que eu não entendia, mas que não evitava deixar transparecer num olhar meio cabisbaixo. Foi quando meu pai teve a idéia de me levar para um passeio no “centrinho”, à notinha, pra ver se me animava. No passeio, entramos em algumas lojas, eu e minha irmã. Numa dessas, uma saia toda bonita me conquistou, com aquele poder de vaidade que as roupas têm sobre as mulheres quando lhes caem bem. Mas a saia custava uma fortuna: cem reais! (Sim, eu acho cem reais por uma peça de vestuário a mais absoluta fortuna, uma fortuna impagável, inclusive. Eu, ao menos, não pago.). O meu pai, tão cheio de boas intenções e ternura comigo, porém, aceitou pagar o altíssimo preço só pra ver se me arrancava uns sorrisos. Gostei tanto da saia que não consegui recusar.

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Saí da loja momentaneamente feliz pela aquisição. Já era tarde, a noite e o movimento se acabavam no silêncio que sempre resta. Fomos encontrar minha mãe, que estava em uma espécie de camelódromo alguns quarteirões adiante. Encontramos-na entretida em um pequeno estande, pobrinho, que vendia uns calções de banho feios, uns chinelos e umas camisetas com palmeiras e a inevitável estampa: “Florianópolis”. Minha mãe, distraída com os calções, nem procurou pela vendedora da barraquinha. Quando eu me debrucei sobre o balcão improvisado, encontrei: duas crianças, que tinham no máximo dez anos, sentadinhos, irmãos, a menina e o menino, tão comportadinhos que meu deu pena. Perguntei-lhes pela mãe, ao que menina, tão educada, me disse que estava trabalhando na rua, vendendo as camisetas. “Então são vocês que cuidam do negócio, aqui?”. “Sim, moça.”.

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Foi como se algum pugilista desferisse sucessivas esbofeteadas na minha cara, então sardenta e tostada de sol. Me senti o último dos seres, encarcerada em solidão e culpa. Enquanto eu me divertia e aproveitava o verão, lá estavam aquelas duas crianças às onze da noite em um pavilhão de camelôs se ocupando em vender camisetas. E tinha aquela maldita saia, na sacola. Digo maldita, porque foi assim que eu a tive naquele instante. O embrulho se tornou cada vez mais pesado, e eu tinha vontade de deixar aquela extravagância pelo caminho. Me esquecer que eu, tão velha com aqueles quatorze anos, ainda ganhava presentes enquanto aqueles dois pequenos se viravam com tanta maturidade e senso de realidade. Tão novinhos e já estavam a par das descontinuidades do mundo.

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Caí num choro convulsivo. Saí correndo de dentro do barracão comercial e corri pra um banco onde pudesse chorar sem ser vista. Minha família, depois de muito me procurar, ao me encontrar lá fora vermelha e deformada de chorar, não entendeu nada. Ficaram atônitos. Eu não lhes expliquei. Era o mundo que eu começava a ver. Eu, menina de interior, que só sabia da vida o que queria saber e o que os livros diziam. Não que isso fosse lá muito pouco. Mas na prática é mais doído, na prática tem sangue. E o mundo, assim, bruto e abrupto me jogando nas fuças as coisas que eu não sabia e que deveria saber.

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Acho que essa foi a primeira dor pela vida que eu tive. Não deve ter sido a primeira, realmente, mas pelo menos foi a primeira sensação que eu pude tornar inteligível. Essa dor que pesa no peito, no ventre e nos ombros e que me acompanha desde então. De forma crônica. A dor do mundo. Uma dor dessas, de menina do interior.

Oct 8, 2008

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sobre medidas e tamanhos.



além do nariz e das orelhas que nunca param de crescer, e do cabelo que rareia, há uma coisa boa nesse tal passar do tempo que impiedosamente nos envelhece. há uma coisa, digamos que intrínseca apenas, pra não cairmos em metafísicas, que também cresce. ainda bem. é que crescemos. em projeções e dimensões que não se conhece a fundo ainda. que nunca poderão ser conhecidas "a fundo". mas que existem.

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[acho que a amplidão com que o mundo se revela diante dos nossos olhos quando entendemos que seu tamanho não tem fim é uma boa metáfora para a tal “coisa”.]


quando essa "coisinha de dentro” descobre que não importa o quanto ela acha que sabe das coisas sempre haverá infinitas outras para serem descobertas e apreciadas, é que uma inevitável mudança vem.

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acho que estou no ponto, no tamanho exato pra começar a abandonar certezas. certezas calcadas em rocha e contraditas jamais não me interessam. nem um pouco, senhor.

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tem vento. tem rajadas, rojões, tufões. tem brisa. mas se leves montantes de ar acariciam a pele, a maresia a castiga. e no vendaval são justamente elas, ironia, as certezas, as primeiras a caírem.

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se você está "certo de que", eu já não me interesso, senhor. gosto do erro, dos que erram, vagam rumo ao esmo. que sabem que o mundo é mundo, e é tão, tão imenso, que se agarrar somente a um galho, um lugar, uma casa, uma opinião, um poema, uma música, a só, exclusivamente algo é perdê-lo. e, principalmente, é perder o restante.

Oct 1, 2008

café, açúcar e formiguinha.

As formiguinhas, pequeninhas, que tomam conta do açúcar aqui em casa. São uns monstrinhos destrutivos. Nem a lata de guloseimas foi poupada. E nem o açucareiro. Nem mesmo os potes, lacrados, tampados escaparam. E os doces em geral. Tomaram conta das prateleiras, dos mantimentos, da ração da filhote de “raposa” paulista; minha filha canina Leda. Elas tomaram conta da casa, de tudo. Formiguinhas, pequenas, organizadas, fazem estrago e sabem que mandam. São muitas. Uma revolução desses microscópicos invertebrados seria o caos da humanidade [caso eles soubessem que podem unir-se, e em número, sim, derrocar nossa altiva raça]. As minhas formiguinhas já são bastante espertas, em questões revolucionárias: elas assaltam no ponto mais frágil de um lar, especialmente nesta época de crise dos alimentos: a despensa.

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Mas meu café, bem, precisa ser adoçado. E mesmo que eu trave um embate com meu estômago, que se contrai ante a visão de um ser a sapatear sobre sua “comida” – e que esse ser nem é tão ser, assim, afinal é uma formiga - um ser que vive “imunda”, pura e naturalmente, que excreta, que se alimenta, que é sujo, pois é bruto, mesmo assim, só sei tomar café adoçado com sacarose. Ou nada feito. Engoli seco. Não sei se tomo café com uma coitadinha amiga formiguinha. Ainda tenho dó das pobrezinhas, pode? Chamo-as de amigas! De qualquer forma, a necessidade de uma xícara fumegante e reconfortante de café pra animar minha madrugada e me encorajar a encarar as horas silenciosas falou mais alto. E cá tomo eu, golinhos do cemitério fervente e cafeinado de amigas/inimigas formiguinhas. Torço para que não haja nenhuma delas na poção, só seus resquícios. Umas patinhas de formiga, anteninhas de formiga, talvez.

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Deve ser o calor. Sim, no calor parece que elas se reproduzem vegetativamente e simplesmente brotam dos cantos. Mas é verdade também que minha lastimosa morosidade e falta de aptidão diante dos cuidados que requer um lar também devem contribuir. As bichinhas gostam de açúcar e no meio da sujeira da minha vida, açúcar e melado pelas bordas é que não deve faltar. Sou das piegas, das mujeres latinas, dramáticas. Podia ser pior, podiam ser baratas, baratinhas. Aqui não há baratinhas. E pensando na possibilidade de, por exemplo, ter de conviver com elas, acho que as formiguinhas talvez não sejam tão más. Ainda que sejam sujas. Nada mais sujo que esse mundo e esses bichos que nunca passaram por uma boa faxina, um banho antiséptico.

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Fazer amizade com elas, as formigas. Eu disse como elas são? São brancas. Digo, não brancas, exatamente, mas clarinhas, num tom quase incolor de areia. Acho que elas são as formigas de menores projeções que eu já vi. Às vezes, pra estar certa de que elas estão lá, passeando, simplesmente caminhando em fila indiana, porque a fila precisa andar, eu tenho de chegar bem perto, forçar minhas pálpebras. Mas se eu fizer isso, elas estarão lá. Muitas. Incontáveis. Penso no que eu não vejo.

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É o jeito, ser amiga delas. E então, será difícil guardar os nomes, pois elas são muitas, são infinitas. Mas são formigas, e prescindem dessas invenções antropológicas, como a língua e a denominação. Sem nome, as minhas amiguinhas que de tantas, são uma só: amiguinha formiga que me rói pelas beiradas. E nessa amizade interespécie, eu entenderia, que ainda entre os cômodos, e as paredes, quando eu penso estar sozinha, acreditando em minha solidão, mesmo que a sensação de só me encarcere e me traga felicidade, ela é apenas uma ilusão. Há milhões, bilhões, infinitas e incontáveis amigas formigas na casa. E outras dessas vidinhas pequenas – não vidas menores – me acompanhando. No carpete, na pia, na privada, na poeira, no açucareiro, embaixo de minhas unhas, se alimentando de minhas células mortas. E, meu deus, até dentro de mim! Não, não estou só. Se há vida nessa sala, que não só a minha, é que não estou só. Nathalia e as formigas. Vou é fazer amizade com essas vidinhas. Mas deixar bem claro que o pote de açúcar é meu!

Aug 29, 2008

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Eu caminhava pelas calçadas e cuidava pra não tropeçar. Os sapatinhos novos. Ventava. Um tipo de vento que é violento e morno e que arrancaria do chão uma árvore ou uma placa na maior das sutilezas, pedindo “- Com Licença”. Eu caminhava e não tinha pressa. Não me importava em chegar. Andar ao vento bastava.

E não era primavera porque era agosto, lembro-me que era agosto. Mas nada era mais primaveril que o vento morno. Já entardecera e a noite agora se impunha progressivamente. Senti calores que contestavam agosto. “Atchim”. Dei um espirro desses que eu só tenho em primavera. E também reparei nas flores. Andei livre.

Eu usava um vestido claro, com algumas estampas e uns babados. Não por me gabar, mas estava bonita. E nem procurava meu reflexo nas vitrines pra constatar. Contente em me sentir bonita, o resto desimportava. E, de repente, um desses senhores distintos que voltava do seu trabalho reparou em mim e falou pra si “- Bonita”. Eu ouvi, isso porque me intrometi na vida do senhor, no seu caminho, porque me esforcei em ouvir sua voz, que o intuito dele não era que eu soubesse. E foi como uma gentileza delicada, dessas que as pessoas só recebem na primavera.

Continuei o caminho. Aonde eu me levaria? Nem lembrei de pensar que o elogio talvez não fosse pra mim. Estava pretensiosa e impiedosa. Entendam, não sou vaidosa, era o vento que me cortava. Eu flutuava nas rajadas e já não sentia os sapatos. Um outro espirro. E as flores no caminho. É que a primavera não sabe do calendário. Espero que ninguém conte pra ela que chegou adiantada.

Aug 21, 2008

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Sobre as idades cronológicas, tento me manter passiva, ignorar esse tempo. Não acho que tempo seja linear, que o que já foi está perdido e que só temos um futuro, que nem em branco deve estar. Eu já tenho meus cinqüenta anos mentais posando num corpo de vinte bem mal conservado. Eu ainda tenho sete anos, e fujo da vida porque ela me intimida com cara feia, esbravejando suas verdades e suas mentiras. Eu não sei qual a minha idade cronológica. O tempo poderia ser medido por outras formas que não os segundos, as horas e esse cronômetro irrefreável, enfim. O tempo poderia ser medido nas estações, ou melhor, nas flores e plantas que desabrocham em certos meses e certos períodos. Imaginem, imaginem, se façam imaginar, botem essa caixa mágica em cima de seus pescoços para funcionar, dêem-lhe corda! O tempo das acácias, o tempo das bromélias, o tempo dos lírios, o tempo das azaléias, o tempo das orquídeas, o tempo daquela florzinha tímida do campo que se esconde nas plantações . O tempo do que é natural. Que não é tempo.

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Eu sou hippie por imaginar coisas assim? Ou sou só maluca? Acho que sou boba e só. Mas minha tolice é uma vitória, é a demonstração de que nem o tempo, essa noção arraigada dele, essa noção enganosa, pode me atingir.

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Quando meus pés me faltam, minhas passadas estão cansadas, vou de ônibus urbano. Sou pedestre. Pé por pé caminho o mundo. Hoje houve uma mudança de rota. Ele, que sempre segue seu percurso, seu mesmo caminho inalterável, o ônibus sem ousadia. Mas o tráfego estava impedido (alguém morreu na contramão?) e dessa vez, um novo trajeto. Vi novas ruas. Como é bom ainda descobrir lugares! E melhor: na vizinhança.

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Foi exatamente dentro desse mesmo instrumento de transporte que tantos odeiam que eu observei jardins e pensei que o tempo das flores poderia ser algo mais que poesia. Poderia ser palavra táctil. Poderia ser uma escolha de minha forma de posicionar-me nesse eixo de espaço que se funde em tempo e noções tão menos precisas que as das plantas e do mundo natural. E segurar bem. Afinal os ônibus são veículos turbulentos.

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Devido à mudança de rota uma senhora praticamente entrou em desespero. Era velha, mas não idosa, pois ainda pagava passagem em coletivos urbanos. Suas feições, porém eram envelhecidas demais. Pele vincada exatamente nos músculos que exprimem tristeza. Suas reclamações com o cobrador se tornavam cada vez mais desagradáveis. A rota nem havia sido grandemente transposta, exatamente. Uma ou outra rua. Alguns quarteirões que não matariam a ninguém. Mas seu desespero fez-me ser tomada por uma agonia, uma vontade chacoalhar a senhora e dize-la que uma caminhada ao sol faria é bem pra suas feições tristonhas.

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Sentada no banco fronteiriço ao desta senhora em fumos esbravejantes de desespero pelos passos que seria obrigada a dar, estava uma outra senhora. Essa, que certamente atingia idade maior, pois possuía assegurado seu transporte gratuito, era, independente de cronologias, muito mais jovial. Não pela falta de rugas, que rugas ela também tinha. Mas eram nos outros músculos, aqueles que contornam os olhos e o sorriso. Rugas de alegria.

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Essa senhorinha, sempre animada com seus cabelos curtinhos e seu batom cor de rosa, tentava consolar a outra. Simpaticamente lhe fez perguntas e descobriu que ambas iam ao mesmo supermercado que oferecia descontos e promoções. Ofereceu-se para acompanhar a primeira. Que aceitou. Ainda contrafeita. Nada a arrancaria de seu universo de sisudez.

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Acho que essas duas velhinhas são exemplos dos dois tempos. O tempo do tempo, o tempo dos homens, da civilização. A primeira, que paga passagem, é que viveu nesse tempo. A segunda senhora, a que se anima diante da possibilidade de uma caminhada ao sol e de consolar uma desconhecida, só pode viver no tempo das flores.


(***)

Sobre as margaridas, disse Clarice:

Margarida: É uma flor alegrezinha. É simples: só tem uma camada de pétalas. Seu centro amarelo é uma brincadeira infantil.

Aug 16, 2008

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Cícero,



Seu "perfil de blogger" me é indisponível, e não tendo onde responder, respondo cá mesmo.



Espero que tu leias.



Tua gentileza comparando essa minha sopa de letrinhas meio sem gosto a um tinto me deixou até comovida.



Não é tanto pelo prazer narcisista de ser lida, mas me parece que sempre que alguém se dispõe a dar um pouco de atenção a um texto, a ler as sentenças, a descobri-las, esta pessoa também se torna escritora dessas mesmas letras. Um vínculo. Quando há oportunidade como uma dessas, onde os dois indivíduos que dedicaram tempo de sua vida a criar e decifrar os mesmos códigos lingüísticos, este mundo obscuro e obsceno das palavras, quando essas pessoas unidas na mesma experiência simbólica, ambas têm a oportunidade de conversar e de trocar comentários, é que se transcende. Ou seja, resumindo: os pitacos são extremamente bem -vindos. Aliás, acho que a única utilidade de um desses "blógues" é a possibilidade de comentar e ser comentado. A "interatividade".



Quanto à beleza versus inteligência, teus comentários e questionamentos foram realmente pertinentes e me pegaram em pontos em que eu ainda nem havia pensado. As tuas proposições foram infinitamente mais bem orquestradas que as minhas. Só posso dizer que acho que a beleza, quando perseguida, deixa de ser beleza. Vira o palavrão. Para mim, e aí eu falo da forma mais pessoal possível, beleza é uma entidade imune a conceitos, imune às limitações causadas por padronizações, imune!, mas que precisa de espontaneidade. Já a “inteligência”, tendendo então mais à sabedoria que a “inteligibilidade”, não só pode, como deve ser perseguida. Eternamente “caçada”, como boa raposa que é.



A naturalidade da beleza é que, exatamente, a torna bela. E aí não importam os elogios, mas se for o caso, eles surgem naturalmente, como uma expressão da reação ao estímulo de belo. Mas aí eu continuo no plano pessoal – e o que fazer se eu não sei falar de outro jeito? É como se a beleza fosse então, uma união de fatores que se agregam ao acaso em um determinado tempo, resultando um instante poético. Um feixe reluzente sem razão de ser, sem serventia nenhuma, como a poesia, mas que é tão necessária que sobreviveria à eternidade. Como a poesia. Uma coisa que insurge e que precisa, sim, de inspiração. Como a poesia.



A possibilidade de constatação ante o espelho é por demais ligada à subjetividade de quem busca seu reflexo. Há mulheres de formas estonteantes que simplesmente não podem e nunca poderão ser belas, a não ser em passarelas. Acho que a tal beleza também pede um pouco de graça. Não sei. A beleza é quase tão fugidia quanto a raposa “inteligência”.


Já deves ter percebido que quando escrevo, dou de ombros à lógica e à coerência. Portanto, se tudo isso te parecer confuso demais, não estranhe, dá de ombros também e senta na mesa que eu pago a próxima rodada.


Ser “reamigos” é como ser amigos, só que dos que deram um tempo pra “não enjoar do relacionamento”. Coisinha à toa. Foi muito bom superar esses entraves que o silêncio impõe. E quebrar um mutismo que já era humanamente insuportável.


Se eu fosse presenteada periodicamente com comentários que me fizessem repensar o que soletro a esmo – feito o teu - ficaria, então, menos penoso e mais fácil o parto diário das palavras que escolhem uns pobres coitados feito eu para serem seu canal. Só uma serva, eu. Fico grata, imensamente, de qualquer forma, amigo.


A família, como vai? Lauren, já enfrentou a lactose e a cafeína? O Bruno continua bebendo ilimitadamente? O enteado, Jean? Aliás, diga pra ele que Syd Barrett não morreu. Está escondido cá na “Ilha da Magia”, numa das doze praias secretas cujos mapas foram perdidos juntamente de boa parte dos vestígios dos antigos imigrantes açorianos. A única informação que Barrett obteve para atingir tal ponto livre, intocado de civilização, situado no litoral catarinense foi apenas a missiva: “ - Segue reto toda vida, pô!


(...é o que dizem...)


Abraços apertados pra vocês daí. Cuidem-se. Não tomem nos copos dos outros. Mas agradeçam sempre as bênçãos de Dionísio e não esqueçam de deixar um “golinho pro santo”.


Aug 12, 2008

Das Velhas Dicotomias.


beleza x inteligência




Li em alguma página que “o mal das mulheres é que elas preferem ser elogiadas por sua beleza muito mais do que por sua inteligência”. Concordei. Tanto que me lembro da sentença rotineiramente, mas da autoria, não consigo recordar de jeito nenhum. Acho que é porque ela assenta perfeitamente com tantos autores, quanto os em que consigo supor que a profeririam. Eurípedes, em Medeia, rompendo com a distante tragédia Ática, poderia muito bem dizer isso na voz de uma persona trágica, na própria protagonista não cairia mal. Simone de Beauvoir poderia, também, por exemplo, entre as milhões de verdades ressentidas que ela fala como que de passagem em “A Mulher Desiludida”, considerar sobre a predileção das mulheres pelos atributos físicos aos pertencentes às idéias. Nelson Rodrigues, insinuando o mau-caráter feminino inato, poderia argumentar citando o fato dessa predileção. Virginia Woolf o diria entre sensibilidades estonteantes e uma clareza inofuscável. Eduardo Galeano faria uma consideração de espetacular fingida ingenuidade sobre o tema.

Penso. Realmente gostaria de poder nomear quem cito. Mas a memória é um labirinto em que quando entramos, nos afundamos e nos perdemos. No meu labirinto, memória e imaginação não se distinguem muito bem. É melhor não passar tão perto.

Tanto me instiga a afirmação do tocante que realmente interessa às mulheres, é que mesmo nesse meu labirinto de lembrança ela persiste. Pulsante. Um pouco incompleta – como posso esquecer a autoria? Mas não acho que isso se diga somente das mulheres e nem que beleza seja a única coisa pelo qual se prefira ser elogiado. Sem generalizações, mesmo generalizando. A verdade é que ser elogiado pelo inteligência, pela pura e complexa capacidade de entendimento e compreensão, de verbalização, pela vastidão do mundo ideal que se possui de bagagem interessa é mesmo a poucos. A inteligência, quando não faz referência a grandes descobertas e frutos advindos, enriquecimento, capacidade de sobressair-se, a inteligência como genuína de inteligibilidade, não, não atende aos interesses desse “nosso tempo”.

Preferir ser elogiado pela beleza do que pela inteligência, se fosse de fato pela beleza intacta e natural, pela beleza abrangente e real não seria má idéia. Antes uma idéia até atrativa. Mas é que beleza, nesse caso, não quer dizer beleza. Sabe quando uma palavra que era pra ser bonita vira um palavrão obsceno? É esse o caso do termo. A beleza preferida pelas “mulheres” é a beleza do padrão, a beleza incoerente que só é gerada pelo sacrifício, a beleza do plastificado e perfeito, a beleza do inumano, do que só é atingível a bisturi, sucção e implante. Nesse tipo de beleza, não cabe simplicidade, não cabe deslumbramento. Ou cabe em um prótese de silicone de dois litros? Não é o volume.

Tudo é tão milimetricamente planejado, não sabem que a beleza precisa de espontaneidade, de uma minúcia que não possui controle, às vezes de um olhar estrábico, de um cabelo selvagem, de umas sardas e de uns certos maus modos. E que essa, somente essa beleza poética, efêmera como toda beleza, essa beleza suscetível e verdadeira é que possui valor quiçá maior que o dom da inteligência.

Aug 4, 2008


Eu sei que há um lugar onde todos os finais se escondem. A parte que falta às minhas crônicas inacabadas, as rimas que não vieram pra compor o soneto, o que houve com o personagem do conto que se perdeu. Está tudo lá. São palavras em estado líquido, imunes, salvas e intocadas por mãos humanas. Palavras puras, como seres. Que vagam, perambulam, distraem-se.


Nesse lugar, os protagonistas que não sabem o que é feito de si se encontram e vão buscar eles próprios – independência do autor – o seu princípio, a sua origem. Cumprimentam-se. Aglutinam-se. Os poemas complementam-se. Os simbolismos, os realismos, os pedantismos, o simples final do poeminha sobre estrelas e céus que um netinho tentou fazer para sua avó: tudo junto, um sincretismo.

É ali que os meus finais e o seus tomam chá enquanto riem de nós que não conseguiremos jamais alcançá-los. Sabem que estão seguros por ali, numa seção de achados e perdidos da rodoviária, num cantinho embaixo do tapete, em armários alugáveis, dentro de um saquinho plástico na caixa de água na privada. Ou em lugar amplo e ermo, com vista para o mar.Eles são astutos e sabem se esconder. Sabem onde é que os que acham serem seus donos jamais os encontrarão.

Eles não têm rumo. Não esperam ter. Esperam ficar quietos em seu cantinho isolado. Fazendo falta. Talvez esse seja o prazer destes finais: fazer falta a quem tenta, inutilmente, invocá-los.

Jul 31, 2008

O nome dele não é Johnny, é João. Comprei a idéia.

Um desentupidor nasal em gotinhas, um pacote de chitos feitos de conservante e milho – mas sem gordura trans! - um filme e um bocado de ansiedade pra assisti-lo. As cafungadas se tornaram constantes, um festival delas, do lado de cá e de lá da tela nas duas horas que foram subseqüentes. O meu caso era um resfriado, com corisas, mucos e nojeiras sendo expelidas das narinas pra demonstrar a batalha corpórea entre mocinhos anticorpos e vilões antígenos. Coisa à toa. O caso do João era mais sério. Ele cafungava a branca – e você sabe o que eu quero dizer com a cor, eu tenho certeza - com ardor, por todo o tempo. O nome dele não é Johnny, é João. Comprei a idéia.

Há mais de um ano tenho me servido quase que exclusivamente do cinema nacional. Não que haja uma razão ou que seja um ataque xenófobo meu. É assim: eu vou pra locadora, dou uma olhada nos lançamentos, passeio em todas as prateleiras, tentando até passar longe da plaquinha onde diz “Brasil”. Mas é só me distrair que acabo caindo no lugar de sempre, embaixo das cores verde e amarela. Ando me servindo do audiovisual daqui e sendo muito bem servida, inclusive. Há um ano o consumo e digo que ele anda quase tão viciante quanto o as lagartixas finas e brancas do meu amigo João.

Meu Nome Não é Johnny é mais um exemplo das suculentas demonstrações da terra de cá que andam sendo servidas nas bandejas da prataria. Selton Mello dispensa comentários. A ascendência de sua carreira é a repercussão inevitável do trabalho que há anos realiza com maestria. O protagonista de Lavoura Arcaica e o Cheiro do Ralo fecha um ciclo dramatizando João Guilherme Estrella. Não sou de pagar pau pra ninguém, mas pro Selton – perceba a intimidade – eu pago. A história do filme, do pueril e desastrado traficante e afoitíssimo consumidor cocaína João é tão surreal e incabível que só poderia ter vindo mesmo é da realidade do mundo de verdade.

O ritmo frenético do filme pode ser comparado ao ritmo causado pelos alcalóides da cocadaboa. A intensidade ilusória com que as coisas se dão e a perda gradativa do controle é sentido pelo expectador, que, distraído, é convidado a descer a escada até o fundo que João Estrela, mais um dos personagens da incrível tragédia da vida, desceu. Um menino da classe média carioca, abonado, boa praça, convidativo e provocante.

O foco dos consumidores e da venda da droga não está nos morros e nas favelas, como usualmente. Está inserido na classe média e alta, na juventude, na velhice, nos mais diversos, comuns e aparentemente inocentes segmentos. João não necessita escalar ladeiras, encarar favelas, conhecer as armas e os algozes do tráfico. João, um “menino do asfalto”, continua no asfalto, do asfalto não sai. É de lá que, vagarosamente, ele se torna o maior fornecedor de coca da cidade do Rio de Janeiro. Um tráfico inócuo, que quase nem parece crime: é de dentro dos condomínios que saem os negócios. Ou então, pasme, em uma peixaria, dentro dos peixes. E os compradores, praticamente de todos os cantos, meios, formas, modus vivendi e operandi, profissões, cores, posturas, bolsos. A raiz de um consumo clandestino que está no seio de toda a sociedade, embora quase nem se aperceba, ou prefira-se nem se aperceber.

E João lá, ganhando dinheiro em quantidades estonteantes e mais parecendo um tamanduá bandeira. É caricata na sua inconseqüência. Passeia pelas ruas e lojas com mais de um quilo de cocaína dentro de uma sacola de feira. Gastando as significativas fortunas que ganha. Quando um dos traficantes com quem faz negócio lhe diz que vai parar com seus atos de ilegalidade, pois atingiu sua meta de acumular um milhão, João diz que sua meta é “torrar um milhão”. A trilha sonora atende à pulsação crescente, remete ao rock nacional da época. O espírito aventureiro é freqüente até que qual João, somos atirados na Europa. Em Veneza, gôndola. Romanticamente, puerilmente, ainda inocentemente. As cenas são deslumbrantes. Também nos deslumbramos. Qual João.

Mais frenetismos. Os anos são os oitenta e noventa, com as típicas efervescências. É quando somos reposicionados bruscamente de novo, qual João. As favelas e o sistema criminal brasileiro vêm à tona nas cenas da prisão de João. A projeção do trabalho marginal do jovem João foi tanta que ele nem se deu conta. Quando a polícia federal entrou em seu encalço, não foi difícil encontrar meios pra detê-lo. João foi pego. A bofetada na cara de João vêm do sistema carcerário típico brasileiro. Pra alguém que nunca entrou em uma favela encara-la condicionada em uma cela na forma de vinte ou trinta homens, fora as outras centenas corredor adiante – João, classe alta, não tinha curso superior – deve ter sido chocante.

Certo. Contei praticamente toda a história. Isso não se faz resenhando um filme. Mas antes de uma tentativa de resenha, isso é uma tentativa de, exatamente, narrar essa história, a história de João. João Guilherme Estrella É uma história e tanto, daquelas que a gente quer ter o prazer de contar, especialmente porque, por mais absurdo que seja seu enredo, ela é uma história real, suas delineações são tramadas com tanta espetacularidade que o palco não poderia ser outro que não a vida, conforme seus ditames. A vida como ela é. João, antes de um consumidor extasiado, um “junky”, mas ainda um negociador nato de um perigoso produto ilegal, era um bom-vivant. Um rapaz simpático, divertido, conquistador. Empreendedorismo e aventura que cativam. Além de tudo, podemos enxergar o comércio de substâncias ilícitas como era há alguns quinze anos, quando as projeções não eram epidêmicas e realidades como as filmadas em “Tropa de Elite” eram impensáveis. Na época onde ainda havia romantismo em relação aos psicotrópicos. Um romantismo esquisito, mas tão quixotesco quanto qualquer romantismo.

Sorte ou não, o final de João também se desenhou com espetacularidade. Ao invés de entende-lo conforme um traficante, a juíza que tratou do caso de João entendeu-o como um viciado. João passa pela vida incólume, talvez a realidade também lhe tenha simpatia, afeição aos seus trejeitos. A pena de Estrella se reduziu a dois anos de internação em clínica psiquiátrica. E conforme o tom espetaculoso, um gran-finale se segue: com João Estrella, o sistema punitivo das leis nacionais funcionam. O que talvez seja a maior ironia e o maior espetáculo desta trama trançada pelas razões desconhecidas da vida. Da vida real. Onde o grande protagonista não se chama Johnny, se chama João.

Meu nome não é Johnny

Uma Produção: Atitude Produções

Produção: Mariza Leão

Direção: Mauro Lima

Roteiro: Mauro Lima e Mariza Leão

(inspirado no livro homônimo de Guilherme Fiúza) .


Jul 12, 2008







Dizem que os grandes assassinos e carrascos, os serial killers e os ditadores, criminosos e pérfidos hediondos, enfim, após sua morte, são condenados a reencarnar no corpo do morador de um condomínio. Quanto mais imponentes e majestosamente macabros fossem os atentados e o pecados cometidos pelo réu, a mais blocos indubitavelmente cúbicos e compridos de concreto – verdadeiros pombais onde se encarceram humanos – ele estaria condenado.


Eu moro no Condomínio Brida. Dois blocos. A e B. Se a premissa popular for verdadeira, meu crime em vidas idas foi dos relativamente pequenos, mas dos chocantes e estarrecedores, imagino. Esse é meu “residencial”: pequeno e incomodativo. São dois blocos, cinco andares de seis apartamentos cada, mais as duas cobertura, quatro garagens, três porteiros, um síndico cínico e uma faxineira que parece ser a única civilizada e sociável por aqui. E eu me pergunto como um exemplar tão pequeno – comparado às projeções que se atingem – da vida condominial possa ser tão infernal. Não tipo o inferno de Dante, que possui eufemismos como rimas e literatura. O inferno real, da vida como ela é. Antes Nelson Rodrigues e uma pitada do fatídico trágico em que consiste conviver.

Hoje pela manhã recebi a visita do síndico cínico aliterado e assonante, Agenor. Absolutamente todos os dias destes seis meses de verdadeiro matrimônio – com todo o retrógado e insuportável das figuras associadas ao casamento - condominial eu o vi trajado, senão com as mesmas roupas, com modelos semelhantes ao ponto de eu não notar diferenciação nas infelizes vezes em que temos de nos cruzar nas “áreas de convivência” do Residencial Brida. Sempre é uma daquelas calças de modelo de alfaiataria em tons como béige e cru e uma camiseta pólo cor azul bebê. Nos dias mais frios, um casaco de kashmir. Invariável, impoluto, com um olhar de sadismo sarcástico cumprimentando-me, parecendo antever minha inadequação a essa vida coletiva em quadrados concretados e com paredes azulejadas e confirmá-la como que dizendo “sim, você não deveria estar aqui”.

E hoje ele aqui, na minha porta, frente ao meu pequeno polígono de lar, meu pequeno santuário, tocando furiosamente a campainha. Logo pensei no condomínio que deveria estar atrasado. Eu, ainda de pijamas, tive de pedir uns segundos para que pudesse me vestir. Vi através do olho mágico a sua impaciência. O porteiro o acompanhava. Talvez fosse mais sério. Não sei porque temo. Não faço grandes barulhos, não dou festas, não acho que a minha vidinha pacata aqui dentro incomode alguém ali fora, ou do lado de lá do corredor. Mas convivência sempre é difícil. Eu não deveria temer.

É engraçado como quando estamos apressados, ou nervosos, ou ansiosos, ou a soma destes, conforme eu me encontrava, não conseguimos executar absolutamente nada com vestígio de precisão ou perícia. Vestir uma saia e uma blusa se tornou aflição, os segundos que corriam e aqueles dois ali fora.

Quando coloquei minha cara feia, descabelada e sonolenta, mas tentando aparentar uma espécie de retidão e dignidade suficiente para falar com o xerife nos ares do oeste do condomínio, o maioral dentro do estatuto de convivência, tive de conter minha filha canina Leda, para que ela não se botasse a brincar simpaticamente com a sumidade. Pobre Leda, não sabe quão respeito devemos às essas pequenas autoridades ludibriadas com o alcance do seu poder. Nem um quarteirão, mas quantas vidas?

Era exatamente dela que reclamavam, da filhote. Repito: Pobre Leda. Ela tem um quilo e meio, dois meses e meio. É tão infantil que ainda não sabe latir. Passa os dias dormindo e me acompanhando. Mas mesmo assim, o coletivo anônimo com quem convivo é intolerante a ela. Decerto ouviram algum de seus ganidos, porque ela ainda é tão infantil que não suporta a solidão, e imagino que chore um pouco quando estou fora. Mas desde que a adotei estou de férias, então, em termos práticos, eu não fico fora de casa. De que eles reclamam?

A outra consideração era sobre o cheiro de substâncias ilícitas que andam sendo emanados na vizinhança. Eu sinto às vezes, no segundo andar, no corredor, mas nunca me interessei pela vida alheia e nem achei que os odores do corredor deveria incomodar-me. Às vezes tem cheiro de comida sendo cozinhada, às vezes tem cheiro de esgoto se despejando, às vezes tem cheiro quase nauseante de cebola sendo frita, às vezes tem cheiro de incenso e às vezes tem cheiro, exatamente, de ilícitos sendo consumidos. Aos outros incomoda. Agenor disse que estava passando de apartamento em apartamento para avisar aos moradores da nova resolução do condomínio: que se novas reclamações surgissem, a polícia poderia ser chamada e entraria dentro dos apartamentos para verificar a “situação”.

Era o que me faltava. Agora, corro o risco de ser invadida pelo defasado, incipiente e claramente corrompido órgão de segurança pública na retidão e placidez de meu lar. Isso, pelo bem do condomínio arrogante que perde parte do seu dia preocupando-se de onde é que vem a marofa. Isso é tão desnecessário e infeliz quanto os indivíduos que passam boa parte de suas vidas discutindo sobre em que buraco é que o pênis ou coisa que o valha deva ser enfiado. Eu só não desejo ser incomodada, ser contatada, ser visitada. É demais em um condomínio?

Conversas vão e vem, o porteiro tenta se tornar mais simpático e me conta das razões da medida: um traficante que habitava as dependências bridienses. [e após uns dias, quando resolvo dar uma olhada naquela papelada toda que o condomínio entrega, atas, reuniões, estatutos, tudo que eu não tive saco de ler anteriormente, eu descobri que nem foi aqui que aconteceu o sucedido do trafica, na verdade, foi tão longe de cá, que foi no continente, não na ilha.].

Continuo achando uma palhaçada. Mas eles são a autoridade, eu os respeito. Rio de suas piadinhas. Simpatia, simpatia. Intimamente pensava, com ironia que agora, quando eu quiser fumar, cigarros de tabaco legalizado, taxado, e quase tão criminalizado quanto os outros cigarrinhos do meu vizinho, vou ter que sair do condomínio. Ou esconder os maços quando sair de casa, pois meu apartamento pode ser “estourado pelos hômi” e sabe-se lá qual a penalidade pra ter cigarro em casa hoje em dia.

A consideração final, incontestável, irrevogável do cínico síndico: “Leve a cachorrinha aonde você for. O condomínio não quer ser incomodado.”

O condomínio, essa entidade...

Jun 29, 2008

chove no meu varal.

chove oblíquamente nas roupas que eu há pouco me esmerei a torcer e estender.


chove, chove, as fazendas cheirosas de limpas em contato com a água do céu, as fazendas que não secarão. eu queria uma chuva que além de molhar os panos que meus braços acabaram de imacular, lavasse minha alma. lavasse dos desesperos, lavasse das metidações, lavasse de todo esse vazio triste e mórbido que se põe no recinto. agora. e chove lá fora.


***


não é semente, as coisas não funcionam sempre assim. você planta, rega, colhe. assim é simples demais.


quantos brotos a terra úmida demais ou seca demais engole? quantas boas intenções de vida vegetativa ou inflorescente... queria que tudo funcionasse como terra boa e clima ameno. assim, você atira o germe no chão, conversa com ele, lhe dá atenção e ele cresce, cresce, ocupando toda a vastidão, fura o céu pra poder se expandir.

mas não, não.


a metáfora da semente não funciona. há sementes podres que parecem boas, há chão, bicho, inseto, praga, doença, ferrugem. e nem as conversas, e nem o carinho, e nem a água clara e brilhante que sai do regador são eficientes contra tanto mundo a atacar a plantinha.


***


certas feitas, ‘inda infante, achava que se eu imaginasse uma coisa com muita força, por muito tempo, segurando bem e firme a respiração, assim, de estalido, de "puft-póim", só uma onomatopéia, e a coisa se tornaria real.

***

chove na roupa molhada. não tento mentalizar forte que pare a chuva, nem implorar que sequem as gotas. deixa a chuva que desfaz meus esforços em lavar as roupas. deixa chover gotas de cristal pra depois sair todo esse monte de cinza feio do céu.

volta o azul. não volta. ainda. a música é uma abstração que salva a alma. as gotas são música, ora ou outra ave louca. eu poderia escrever cartas e não me apegar tanto às pessoas. falar-lhes de longe apenas. mas preciso vê-las, sentí-las intimamente, rosto-rosto, sorriso - sorriso.


***


ahn, as coisas, as coisas, poderiam ser mais certas as coisas. poderiam ser mais exatas, seguir qualquer curso, não precisa ser exatamente o que eu planejo e espero, mas um curso indeterminado que ao menos parecesse curso. não coisas como objeto, não coisas que se pega. sabe-se: "as coisas", essas meio peculiares da existência, as vicissitudes da vida. ou ainda, para quem prefere generalizá-las em uma única e massiva: a coisa. "como anda a coisa?" ahn, mas a minha não anda. ela tropeça, ela cai, ela corre às vezes e de outras prefere parar e estagnar. a coisa num dia chuvoso não é bem coisa. é só o resto da coisa, o dia cinza de nada.


***


queria acalento, não tenho. nem voz amiga. quando se quer essas coisas necessária a um pouco de dignidade de espírito - e não se tem - é possível sentir-se o mais puro nada. um vácuo que aguarda um cafuné que seja. não dá pra pedi-lo às portas ou aos objetos, eles não respondem.

peço afagos à chuva, gelados, incidentes, gotinhas de flecha. não quero coisas, nem ter de pensar muito, quero o meu vazio de nenhuma sensação, o meu vazio dos não-insights, o meu vazio do que não houve.


***

talvez me dê acalento, a chuva. talvez se eu pensar e desejar com bastante força. Assim, “puft-póim”.

Mar 3, 2008

mundo, mundo, vasto mundo.

me chamar raimundo parece piada pra apontar solução, desculpas ao gauche. Solução – suspiro resignado – só em ficções científicas, talvez.

no oriente explosões, bombas, fumaças, corpos decepados, caos. é irônico, assolador de esperanças, o fato de o pequeno agregado de terras do crescente fértil, esse montante entre rios, exatamente onde a civilização - historicamente analisada, advinda da invenção da escrita, mais propriamente - tenha surgido. agora está assim, do jeito que sabemos que está e que, separados pelas alcunhas de orientais e ocidentais, bem nos bastamos a dar de ombros. assusta.

no ocidente, os mesmos males modernos. aliás, corrijo-me, pós-modernos. os sentimentos de irmandade américo-latina vêm abaixo. ruem. conflitos que a boa vontade não resolve, narcotráfico, troca de tiros de metralhadoras que matam sem pestanejar. Matam sem limites. Fidel abdicou, ou estou louca? devo estar louca, pois Fidel abdicou. a mão avaramente adunca largou o cajado do poder. trêmulo, o general pendurou a farda e vestiu o pijama. e as pantufas.

solução, solução. nem querer, se quer mais. um pouco de paliativo, paz, apaziguamento, talvez console. o salário mínimo aumenta inverossímeis trinta e cinco reais. isso não é paz. é piada.

apontar uma luz, segurar uma lâmpada elétrica pra alumiar um pouco dessa treva e horror. talvez a visão do real desperte um pouco de repulsa, náusea e horror. quando sucessões de tragadas de cigarro não bastam, não contêm o ímpeto, respirar direito não alivia a ânsia de regurgito. ainda assim, segurar a lâmpada. a luz, uma fonte de luz. clarear as trevas, ter estômago - esse órgão da tristeza, esse órgão que engole, digere tristeza - para agüentar a visão do que a realidade se tornou. ser forte o suficiente.

as coisas como são e se tornaram doem. não querer vê-las, tamanha sua feiúra, tamanho o fedor de suas mazelas e entrâncias, é até compreensível. mas é, antes de tudo, uma traição à vida, ao que a vida é. é como renegá-la, simplesmente. não dispor do que a existência mais implora: coragem. coragem o suficiente pra não abandonar o posto.

***

...e o completo oposto disso tudo.

coisa mais bonita: na primeira transmissão de ondas sonoras aos recônditos do espaço, a asséptica nasa escolheu como canção "Across the Universe", Let It Be, Beatles, John. das profundas, significativas mesmo uma coisa dessas, arrepiante. eu, de bom grado, satisfeita inclusive, deixo o meu amado fab four falar por mim, uma voz universal, e mandar a mensagem de minha raça [divagações com tendências ficcionais incríveis a parte] e espalhar como mensagem: Jai Guru Deva Om. Indo, indo longe, indo para através do universo. Ondas de melodia que transcendem à paz. Aqui tem guerra, mas mandamos paz.

eu suspeita pelos pôsteres e pelas manias de beatlótatra [um vício que não desejo abandonar], não queria que outra coisa fosse dita.mesmo na nasa, nos malvadões states, mesmo que esse fato seja distante da minha realidade e pouco afete minha rotina, praticamente me servindo de nada, me faz bem. é poesia, não é?

...nothing's gonna change my world.

Feb 26, 2008

só para os raros.





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se eu fosse abrir um bar teria o mesmo nome do meu club virtual. não seria exatamente um bar, bar, onde só se serve cerveja e se divague e coma nas mesinhas redondas. um bar, que sendo bar ao mesmo tempo despertaria algo mais. convidaria a algo. seria mais um teatro. mas não propriamente. teria a classe, a tensão lúcida a cultura vivída de um teatro. e ao mesmo tempo o tom profano, a vagabundagem, o ócio que só se encontra nos melhores botecos. jogatina permitida, mesas de sinuca. el club silencio.

as bebidas seriam efervescentes, nada tão caro. drinques coloridos. mas cerveja em canecos bem grandes, canecos de vidro pra empunhar como uma taça. preços razoáveis e diversão etílica ou seu dinheiro de volta. mas nem só de surdina, madrugada e trago vive o homem. há de se ter cafeína, bebidas fumegantes e bons cigarros pro papo vespertino. uma meia luz feita com cortinas de veludo grossas e janelas abertas por onde penetra em difração a luz solar vespertina. ar intimista, onde as melhores prosas, as mais longas, que perduram toda a tarde poderiam ser discorridas.

uma decoração vermelha. azul. veludo coquetelê. talvez até uma boneca de cabelo azul no andar superior. talvez eu até remonte cabarés boêmios na decoração. os fumantes não seriam relegados a alas anti-sépticas. as pessoas sabem se organizar naturalmente, é a vida em sociedade, cada um bem sabendo o que deseja pro seu nariz. de um círculo vermelho a um arrebitado prepotente. e quem se importa tanto com a fumaça do cigarro alheia, certamente não desejaria freqüentar silencio.

as atrações, sem chamariscos comerciais, seriam das mais diversas e envolventes. saraus, shows, peças, recitais, o que se quiser fazer no palco. e o palco é aberto a quem tiver coragem de encará-lo. a quem tiver humildade suficiente, também. não quero vender bebidas a preços exorbitantes e lotar a minha casa. "casa cheia" só se for de descontração e boa gente. isso tudo não tende em nada pras "baladas" modernosas que têm por aí. el club silencio está a salvo delas. Não é “night”, é madrugada, é noite, é escuro. “azaração” é barrada na portaria.

mas o melhor de tudo, a verdadeira essência do club silencio, o que lhe importa mesmo e o que o manteria muito além da construção de concreto e de um caixa cheio seria a gente. el club silencio não exige nada de ninguém para entrar, nenhum centavo, nenhum pré-requisito. Todos à vontade, cheguem mais perto! mas mesmo assim, não bastaria ser qualquer um. não bastaria ter montões de dinheiro pra gastar, não. as pessoas seriam escolhidas por sua espontaneidade, pela naturalidade dos gestos, pela simplicidade. pro club silencio não conta de nada a eloqüência, os bons modos, a vastidão cultural, os saberes e os termos coerentes. pro club esses valores de "fila anda" e "pegação" não valem de nada também. Nem pequenices da classe média, nem maldade, muito menos a futilidade.

vale a loucura, sim, a loucura pessoal, a insanidade genial que há no âmago de todos que se deixam levar, a tendência a ser o que se é, a humildade - por favor não a modéstia - a despretensão. no club silencio vale quem silencia, mas quem não sabe calar também.



"só para os raros", algo assim, talvez, como Hesse. afixado na porta, sem nenhuma proibição. quem é raro saberia e inevitavelmente entraria. quem se importa com uma plaquinha citando Hesse na porta da frente certamente sentiria que ali é o lugar onde deveria estar. só para os raros, a única publicidade.

Jan 12, 2008

"Vivendo e aprendendo a jogar"...

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É o jeito. Cair, esmurrar, debater e, se possível, da melhor forma. Tentar amenizar os danos e... ...sim, aprender. Ter humildade pra isso, pra até tomar notas das lições, quando necessário. Mas excetuadas as filosofias, se a frase for entoada por Elis, sim, entoada, porque a Elis não se contenta e exibir o vozeirão, as firulas da garganta forte, ela também interpreta como ninguém; e no vinil, então, é só delícia pra audição. Um amigo, dos que conseguem ser engraçadíssimos sem tentar sê-lo, sem fazer “palhaçada” nenhuma, só falando com seu sarcasmo e leve carranca, mas leve, um semblante entre sisudo e divertido, me disse que, fisicamente, as ondas sonoras produzidas pelo vinil são mais perfeitas e “cheias” do que as produzidas pela leitura de um cd ou coisa que o valha. Fiquei feliz. Até que enfim posso comprovar porque ainda sou tão saudosista e só gosto de música vinda desses enormes e negros discos.

O verão não entra pela janela, nenhum pouco de sutileza. Invade, corrompe teto, janela, parede de tijolos sem furos resistentes até à maresia, mas claro que frágeis a essas ondas tão, tão quentes. A ilha ferve no mar morno, qual se estivesse em um caldo flamejante. Gente, gente, gente. Todos quase nus, contentes, crianças de todas as partes construindo castelos, fortes, muralhas, reinos da imaginação, correndo no mar, caindo nas ondas, chorando desesperadas. Crianças de todos os tipos brincando aos montes, às levas. Coisa mais bonita? O verão da ilha de Flor[ianópolis] é, certamente, caro ao imensurável pro monte de turistas. Gente disposta a pagar por diversão. Mas bonito, festivo e feliz, não há de se negar. Seria mais bacana ainda se toda essa gente de fora demonstrasse que lá de onde vêm se tem educação e bons modos. E pelo menos não sujassem a praia com porcarias, bitucas, papéis. Mas isso é um capítulo à parte, importantíssimo embora, especialmente considerado quão medonho é ver um marzão azul vomitando sujeira na praia.

E eu corrompida pelo despudor, corrompida pela efervescência quis também me dar ao luxo de ser um pouco turista. Por certo que não poderia pagar os preço que eles pagam nas praias visitadas ao fervor durante a temporada. Mas fui em uma das mais visitadas. Uma caipirinha num copo americano custa seis reais por lá. Um roubo, se visto o tamanhinho dela. Eu que gosto de apreciar da água russa, então, precisava de umas três só pra matar a sede. Não que eu exagere, é que os copinhos eram de licor! Mas paguei, paguei o preço delas até porque eu precisava do guarda-sol pra proteger minha brancura de recém voltada dos pampas do ensolarado e perigoso meio dia. Tinham alguns para serem alugados, mas, por certo, caros ao extremo também. Fico eu encolhida no guarda-sol do barzinho, na mesinha de plástico, tudo diminutivo de fato, degustando das caipiras. O mar – como pude tardar tanto a falar do mais importante? – o mar estava límpido, brando, algumas ondas grandes só pra divertir e assustar um pouco, mais lindo de ver. Dava pra enxergar os pés mesmo quando a água já batia no queixo. Dava pra mergulhar de cabeça e se deixar levar, como poucas coisas na vida ainda o permitem.

Na costa de areia branca tinha. Por algum motivo todos os turistas se aglomeravam em um único ponto. Tinha gente bonita, gente feia, velha, nova, divertida, carrancuda, bêbada. Todos unidos pela indistinção de umas sungas e uns biquínis. O calção do juiz é igualzinho ao do vendedor de picolé. As sungas, todas indubitavelmente transformando a maioria das formas masculinas em visões do grotesco. Não digo todas, mas a maioria. Todo mundo fica igual nessa situação de verão, na mesma condição. Todos só querem um lugar ao sol, uma cadeira ou canga à sombra, água fresca e um pouco de paz e cerveja gelada. Os guarda-sóis que já viram muitos verões gastos por igual. Não há quem não mereça isso, na verdade. Uma tardezinha de diversão. Jogar bola na areia, jogar o corpo na areia, jogar areia no outro e depois se arremessar furando ondas pra limpar todo o croquete das pernas. Não precisa exagero, nem dispêndio, nem bebidas caras, nem camarões no bafo, só disponibilidade pra alegria.

Hoje, hoje chove e venta bem forte. É sábado, mas não de sol, o que contraria uma premissa. O sol, exposto, queima, queimou-me. Nem adiantou gastar fortunas com caipira pra desfrutar de uma sombrinha naquele descampado enorme de areia, água e beleza. Pelo menos nos ardores nas costas, nos repuxões da pele vermelha pulsante, posso me lembrar de um pouco de felicidade iluminada pelo sol que tive. Que cobrou seu preço, como tudo o faz, incluindo o próprio ato de sorver e expirar o oxigênio, o ato mais vital. “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”.