Oct 1, 2008

café, açúcar e formiguinha.

As formiguinhas, pequeninhas, que tomam conta do açúcar aqui em casa. São uns monstrinhos destrutivos. Nem a lata de guloseimas foi poupada. E nem o açucareiro. Nem mesmo os potes, lacrados, tampados escaparam. E os doces em geral. Tomaram conta das prateleiras, dos mantimentos, da ração da filhote de “raposa” paulista; minha filha canina Leda. Elas tomaram conta da casa, de tudo. Formiguinhas, pequenas, organizadas, fazem estrago e sabem que mandam. São muitas. Uma revolução desses microscópicos invertebrados seria o caos da humanidade [caso eles soubessem que podem unir-se, e em número, sim, derrocar nossa altiva raça]. As minhas formiguinhas já são bastante espertas, em questões revolucionárias: elas assaltam no ponto mais frágil de um lar, especialmente nesta época de crise dos alimentos: a despensa.

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Mas meu café, bem, precisa ser adoçado. E mesmo que eu trave um embate com meu estômago, que se contrai ante a visão de um ser a sapatear sobre sua “comida” – e que esse ser nem é tão ser, assim, afinal é uma formiga - um ser que vive “imunda”, pura e naturalmente, que excreta, que se alimenta, que é sujo, pois é bruto, mesmo assim, só sei tomar café adoçado com sacarose. Ou nada feito. Engoli seco. Não sei se tomo café com uma coitadinha amiga formiguinha. Ainda tenho dó das pobrezinhas, pode? Chamo-as de amigas! De qualquer forma, a necessidade de uma xícara fumegante e reconfortante de café pra animar minha madrugada e me encorajar a encarar as horas silenciosas falou mais alto. E cá tomo eu, golinhos do cemitério fervente e cafeinado de amigas/inimigas formiguinhas. Torço para que não haja nenhuma delas na poção, só seus resquícios. Umas patinhas de formiga, anteninhas de formiga, talvez.

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Deve ser o calor. Sim, no calor parece que elas se reproduzem vegetativamente e simplesmente brotam dos cantos. Mas é verdade também que minha lastimosa morosidade e falta de aptidão diante dos cuidados que requer um lar também devem contribuir. As bichinhas gostam de açúcar e no meio da sujeira da minha vida, açúcar e melado pelas bordas é que não deve faltar. Sou das piegas, das mujeres latinas, dramáticas. Podia ser pior, podiam ser baratas, baratinhas. Aqui não há baratinhas. E pensando na possibilidade de, por exemplo, ter de conviver com elas, acho que as formiguinhas talvez não sejam tão más. Ainda que sejam sujas. Nada mais sujo que esse mundo e esses bichos que nunca passaram por uma boa faxina, um banho antiséptico.

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Fazer amizade com elas, as formigas. Eu disse como elas são? São brancas. Digo, não brancas, exatamente, mas clarinhas, num tom quase incolor de areia. Acho que elas são as formigas de menores projeções que eu já vi. Às vezes, pra estar certa de que elas estão lá, passeando, simplesmente caminhando em fila indiana, porque a fila precisa andar, eu tenho de chegar bem perto, forçar minhas pálpebras. Mas se eu fizer isso, elas estarão lá. Muitas. Incontáveis. Penso no que eu não vejo.

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É o jeito, ser amiga delas. E então, será difícil guardar os nomes, pois elas são muitas, são infinitas. Mas são formigas, e prescindem dessas invenções antropológicas, como a língua e a denominação. Sem nome, as minhas amiguinhas que de tantas, são uma só: amiguinha formiga que me rói pelas beiradas. E nessa amizade interespécie, eu entenderia, que ainda entre os cômodos, e as paredes, quando eu penso estar sozinha, acreditando em minha solidão, mesmo que a sensação de só me encarcere e me traga felicidade, ela é apenas uma ilusão. Há milhões, bilhões, infinitas e incontáveis amigas formigas na casa. E outras dessas vidinhas pequenas – não vidas menores – me acompanhando. No carpete, na pia, na privada, na poeira, no açucareiro, embaixo de minhas unhas, se alimentando de minhas células mortas. E, meu deus, até dentro de mim! Não, não estou só. Se há vida nessa sala, que não só a minha, é que não estou só. Nathalia e as formigas. Vou é fazer amizade com essas vidinhas. Mas deixar bem claro que o pote de açúcar é meu!

7 comments:

you're no fun any more said...

tu, tão doce, super atacada por formigas.
imagino a briga pelo açúcar. deixe de lado isso, açúcar faz mal. respira fundo e bang!, táca-lhe adoçante ou toma sem nada mesmo. acende um cigarro pra ficar mais segura de si.
aproveita e brinca de tacar cinza no caminho das formigas. não brasa, e nem nelas. isso é errado. podem te processar. não dá para esquecer que os bichos, até mesmo as formigas, são mais bem assessoradas que a gente, gente. cinzas, e no caminho. elas ficam todas perdidas, e você poderá dar uma risada de Deus, mostrando quem realmente pode fazer algo na bagaça. não gosto de formigas. nem de abelhas. mas com as abelhas não me meto a besta, com as formigas sim.
luv.

Afobório said...

"de veraz", diria certo Júlio César para toda a Roma.

café para a cabeça; açúcar para a alma; sem cigarros e café eu travo;

e que o ibama me perdoe, mas fodan-se as formigas, sem café e cigarros...


seria como escrever sem um leitor...

o texto é grande, assim como Roma, pode acreditar...

e em meio a tanto doce; tomara que outros blogues sejam invadidos por todo esse açúcar.


até mais, e viva a romaria, a terra natal, e tudo mais.

até.

att. cavanhasogarotoantigo.

sorte e luz.

Luiz Calcagno said...

Se fosse constante como essas pequeninas, acho que acompanharia melhor o clube. Uma vez vi uma fila de formiga com quase um metro de largura invadir uma casa, acredite se quiser. Os bichos, baratas, lagartixas, aranhas, besouros e outros fugiam como amigos, migravam daquele campo de batalha microscópico. Abraço

Jana said...

Gosto do jeito como tu escreve sobre as pequenas coisinhas dessa vida.
Da formiga até a vizinha que grita por vida no segundo andar.
É MUITO bacana.

E mais: sempre achei melhor se juntar ao inimigo quando não se pode contra ele.
É, no mínimo, inteligente.

Beijoca.

deguas said...

na cozinha formigas...
no quarto copins.
Aqui em casa é assim.
triste né

.Dazinha. said...

Me apaixonei total-e-completamente por este texto.
Lembrou-me o primeiro conto de um livro que adoro " O Homem que odiava as Segunda-feiras".
Só que de uma forma mais leve.
Adorei!

Beijão!

you're no fun any more said...

babe!
o show vai ser dia 17 e o ingresso tá 80 pilas.
quase comprei o meu, mas desisti. acho que vou comprar essa semana.
avisa se você vier.
luv.