Aug 12, 2008

Das Velhas Dicotomias.


beleza x inteligência




Li em alguma página que “o mal das mulheres é que elas preferem ser elogiadas por sua beleza muito mais do que por sua inteligência”. Concordei. Tanto que me lembro da sentença rotineiramente, mas da autoria, não consigo recordar de jeito nenhum. Acho que é porque ela assenta perfeitamente com tantos autores, quanto os em que consigo supor que a profeririam. Eurípedes, em Medeia, rompendo com a distante tragédia Ática, poderia muito bem dizer isso na voz de uma persona trágica, na própria protagonista não cairia mal. Simone de Beauvoir poderia, também, por exemplo, entre as milhões de verdades ressentidas que ela fala como que de passagem em “A Mulher Desiludida”, considerar sobre a predileção das mulheres pelos atributos físicos aos pertencentes às idéias. Nelson Rodrigues, insinuando o mau-caráter feminino inato, poderia argumentar citando o fato dessa predileção. Virginia Woolf o diria entre sensibilidades estonteantes e uma clareza inofuscável. Eduardo Galeano faria uma consideração de espetacular fingida ingenuidade sobre o tema.

Penso. Realmente gostaria de poder nomear quem cito. Mas a memória é um labirinto em que quando entramos, nos afundamos e nos perdemos. No meu labirinto, memória e imaginação não se distinguem muito bem. É melhor não passar tão perto.

Tanto me instiga a afirmação do tocante que realmente interessa às mulheres, é que mesmo nesse meu labirinto de lembrança ela persiste. Pulsante. Um pouco incompleta – como posso esquecer a autoria? Mas não acho que isso se diga somente das mulheres e nem que beleza seja a única coisa pelo qual se prefira ser elogiado. Sem generalizações, mesmo generalizando. A verdade é que ser elogiado pelo inteligência, pela pura e complexa capacidade de entendimento e compreensão, de verbalização, pela vastidão do mundo ideal que se possui de bagagem interessa é mesmo a poucos. A inteligência, quando não faz referência a grandes descobertas e frutos advindos, enriquecimento, capacidade de sobressair-se, a inteligência como genuína de inteligibilidade, não, não atende aos interesses desse “nosso tempo”.

Preferir ser elogiado pela beleza do que pela inteligência, se fosse de fato pela beleza intacta e natural, pela beleza abrangente e real não seria má idéia. Antes uma idéia até atrativa. Mas é que beleza, nesse caso, não quer dizer beleza. Sabe quando uma palavra que era pra ser bonita vira um palavrão obsceno? É esse o caso do termo. A beleza preferida pelas “mulheres” é a beleza do padrão, a beleza incoerente que só é gerada pelo sacrifício, a beleza do plastificado e perfeito, a beleza do inumano, do que só é atingível a bisturi, sucção e implante. Nesse tipo de beleza, não cabe simplicidade, não cabe deslumbramento. Ou cabe em um prótese de silicone de dois litros? Não é o volume.

Tudo é tão milimetricamente planejado, não sabem que a beleza precisa de espontaneidade, de uma minúcia que não possui controle, às vezes de um olhar estrábico, de um cabelo selvagem, de umas sardas e de uns certos maus modos. E que essa, somente essa beleza poética, efêmera como toda beleza, essa beleza suscetível e verdadeira é que possui valor quiçá maior que o dom da inteligência.

Aug 4, 2008


Eu sei que há um lugar onde todos os finais se escondem. A parte que falta às minhas crônicas inacabadas, as rimas que não vieram pra compor o soneto, o que houve com o personagem do conto que se perdeu. Está tudo lá. São palavras em estado líquido, imunes, salvas e intocadas por mãos humanas. Palavras puras, como seres. Que vagam, perambulam, distraem-se.


Nesse lugar, os protagonistas que não sabem o que é feito de si se encontram e vão buscar eles próprios – independência do autor – o seu princípio, a sua origem. Cumprimentam-se. Aglutinam-se. Os poemas complementam-se. Os simbolismos, os realismos, os pedantismos, o simples final do poeminha sobre estrelas e céus que um netinho tentou fazer para sua avó: tudo junto, um sincretismo.

É ali que os meus finais e o seus tomam chá enquanto riem de nós que não conseguiremos jamais alcançá-los. Sabem que estão seguros por ali, numa seção de achados e perdidos da rodoviária, num cantinho embaixo do tapete, em armários alugáveis, dentro de um saquinho plástico na caixa de água na privada. Ou em lugar amplo e ermo, com vista para o mar.Eles são astutos e sabem se esconder. Sabem onde é que os que acham serem seus donos jamais os encontrarão.

Eles não têm rumo. Não esperam ter. Esperam ficar quietos em seu cantinho isolado. Fazendo falta. Talvez esse seja o prazer destes finais: fazer falta a quem tenta, inutilmente, invocá-los.

Jul 31, 2008

O nome dele não é Johnny, é João. Comprei a idéia.

Um desentupidor nasal em gotinhas, um pacote de chitos feitos de conservante e milho – mas sem gordura trans! - um filme e um bocado de ansiedade pra assisti-lo. As cafungadas se tornaram constantes, um festival delas, do lado de cá e de lá da tela nas duas horas que foram subseqüentes. O meu caso era um resfriado, com corisas, mucos e nojeiras sendo expelidas das narinas pra demonstrar a batalha corpórea entre mocinhos anticorpos e vilões antígenos. Coisa à toa. O caso do João era mais sério. Ele cafungava a branca – e você sabe o que eu quero dizer com a cor, eu tenho certeza - com ardor, por todo o tempo. O nome dele não é Johnny, é João. Comprei a idéia.

Há mais de um ano tenho me servido quase que exclusivamente do cinema nacional. Não que haja uma razão ou que seja um ataque xenófobo meu. É assim: eu vou pra locadora, dou uma olhada nos lançamentos, passeio em todas as prateleiras, tentando até passar longe da plaquinha onde diz “Brasil”. Mas é só me distrair que acabo caindo no lugar de sempre, embaixo das cores verde e amarela. Ando me servindo do audiovisual daqui e sendo muito bem servida, inclusive. Há um ano o consumo e digo que ele anda quase tão viciante quanto o as lagartixas finas e brancas do meu amigo João.

Meu Nome Não é Johnny é mais um exemplo das suculentas demonstrações da terra de cá que andam sendo servidas nas bandejas da prataria. Selton Mello dispensa comentários. A ascendência de sua carreira é a repercussão inevitável do trabalho que há anos realiza com maestria. O protagonista de Lavoura Arcaica e o Cheiro do Ralo fecha um ciclo dramatizando João Guilherme Estrella. Não sou de pagar pau pra ninguém, mas pro Selton – perceba a intimidade – eu pago. A história do filme, do pueril e desastrado traficante e afoitíssimo consumidor cocaína João é tão surreal e incabível que só poderia ter vindo mesmo é da realidade do mundo de verdade.

O ritmo frenético do filme pode ser comparado ao ritmo causado pelos alcalóides da cocadaboa. A intensidade ilusória com que as coisas se dão e a perda gradativa do controle é sentido pelo expectador, que, distraído, é convidado a descer a escada até o fundo que João Estrela, mais um dos personagens da incrível tragédia da vida, desceu. Um menino da classe média carioca, abonado, boa praça, convidativo e provocante.

O foco dos consumidores e da venda da droga não está nos morros e nas favelas, como usualmente. Está inserido na classe média e alta, na juventude, na velhice, nos mais diversos, comuns e aparentemente inocentes segmentos. João não necessita escalar ladeiras, encarar favelas, conhecer as armas e os algozes do tráfico. João, um “menino do asfalto”, continua no asfalto, do asfalto não sai. É de lá que, vagarosamente, ele se torna o maior fornecedor de coca da cidade do Rio de Janeiro. Um tráfico inócuo, que quase nem parece crime: é de dentro dos condomínios que saem os negócios. Ou então, pasme, em uma peixaria, dentro dos peixes. E os compradores, praticamente de todos os cantos, meios, formas, modus vivendi e operandi, profissões, cores, posturas, bolsos. A raiz de um consumo clandestino que está no seio de toda a sociedade, embora quase nem se aperceba, ou prefira-se nem se aperceber.

E João lá, ganhando dinheiro em quantidades estonteantes e mais parecendo um tamanduá bandeira. É caricata na sua inconseqüência. Passeia pelas ruas e lojas com mais de um quilo de cocaína dentro de uma sacola de feira. Gastando as significativas fortunas que ganha. Quando um dos traficantes com quem faz negócio lhe diz que vai parar com seus atos de ilegalidade, pois atingiu sua meta de acumular um milhão, João diz que sua meta é “torrar um milhão”. A trilha sonora atende à pulsação crescente, remete ao rock nacional da época. O espírito aventureiro é freqüente até que qual João, somos atirados na Europa. Em Veneza, gôndola. Romanticamente, puerilmente, ainda inocentemente. As cenas são deslumbrantes. Também nos deslumbramos. Qual João.

Mais frenetismos. Os anos são os oitenta e noventa, com as típicas efervescências. É quando somos reposicionados bruscamente de novo, qual João. As favelas e o sistema criminal brasileiro vêm à tona nas cenas da prisão de João. A projeção do trabalho marginal do jovem João foi tanta que ele nem se deu conta. Quando a polícia federal entrou em seu encalço, não foi difícil encontrar meios pra detê-lo. João foi pego. A bofetada na cara de João vêm do sistema carcerário típico brasileiro. Pra alguém que nunca entrou em uma favela encara-la condicionada em uma cela na forma de vinte ou trinta homens, fora as outras centenas corredor adiante – João, classe alta, não tinha curso superior – deve ter sido chocante.

Certo. Contei praticamente toda a história. Isso não se faz resenhando um filme. Mas antes de uma tentativa de resenha, isso é uma tentativa de, exatamente, narrar essa história, a história de João. João Guilherme Estrella É uma história e tanto, daquelas que a gente quer ter o prazer de contar, especialmente porque, por mais absurdo que seja seu enredo, ela é uma história real, suas delineações são tramadas com tanta espetacularidade que o palco não poderia ser outro que não a vida, conforme seus ditames. A vida como ela é. João, antes de um consumidor extasiado, um “junky”, mas ainda um negociador nato de um perigoso produto ilegal, era um bom-vivant. Um rapaz simpático, divertido, conquistador. Empreendedorismo e aventura que cativam. Além de tudo, podemos enxergar o comércio de substâncias ilícitas como era há alguns quinze anos, quando as projeções não eram epidêmicas e realidades como as filmadas em “Tropa de Elite” eram impensáveis. Na época onde ainda havia romantismo em relação aos psicotrópicos. Um romantismo esquisito, mas tão quixotesco quanto qualquer romantismo.

Sorte ou não, o final de João também se desenhou com espetacularidade. Ao invés de entende-lo conforme um traficante, a juíza que tratou do caso de João entendeu-o como um viciado. João passa pela vida incólume, talvez a realidade também lhe tenha simpatia, afeição aos seus trejeitos. A pena de Estrella se reduziu a dois anos de internação em clínica psiquiátrica. E conforme o tom espetaculoso, um gran-finale se segue: com João Estrella, o sistema punitivo das leis nacionais funcionam. O que talvez seja a maior ironia e o maior espetáculo desta trama trançada pelas razões desconhecidas da vida. Da vida real. Onde o grande protagonista não se chama Johnny, se chama João.

Meu nome não é Johnny

Uma Produção: Atitude Produções

Produção: Mariza Leão

Direção: Mauro Lima

Roteiro: Mauro Lima e Mariza Leão

(inspirado no livro homônimo de Guilherme Fiúza) .


Jul 12, 2008







Dizem que os grandes assassinos e carrascos, os serial killers e os ditadores, criminosos e pérfidos hediondos, enfim, após sua morte, são condenados a reencarnar no corpo do morador de um condomínio. Quanto mais imponentes e majestosamente macabros fossem os atentados e o pecados cometidos pelo réu, a mais blocos indubitavelmente cúbicos e compridos de concreto – verdadeiros pombais onde se encarceram humanos – ele estaria condenado.


Eu moro no Condomínio Brida. Dois blocos. A e B. Se a premissa popular for verdadeira, meu crime em vidas idas foi dos relativamente pequenos, mas dos chocantes e estarrecedores, imagino. Esse é meu “residencial”: pequeno e incomodativo. São dois blocos, cinco andares de seis apartamentos cada, mais as duas cobertura, quatro garagens, três porteiros, um síndico cínico e uma faxineira que parece ser a única civilizada e sociável por aqui. E eu me pergunto como um exemplar tão pequeno – comparado às projeções que se atingem – da vida condominial possa ser tão infernal. Não tipo o inferno de Dante, que possui eufemismos como rimas e literatura. O inferno real, da vida como ela é. Antes Nelson Rodrigues e uma pitada do fatídico trágico em que consiste conviver.

Hoje pela manhã recebi a visita do síndico cínico aliterado e assonante, Agenor. Absolutamente todos os dias destes seis meses de verdadeiro matrimônio – com todo o retrógado e insuportável das figuras associadas ao casamento - condominial eu o vi trajado, senão com as mesmas roupas, com modelos semelhantes ao ponto de eu não notar diferenciação nas infelizes vezes em que temos de nos cruzar nas “áreas de convivência” do Residencial Brida. Sempre é uma daquelas calças de modelo de alfaiataria em tons como béige e cru e uma camiseta pólo cor azul bebê. Nos dias mais frios, um casaco de kashmir. Invariável, impoluto, com um olhar de sadismo sarcástico cumprimentando-me, parecendo antever minha inadequação a essa vida coletiva em quadrados concretados e com paredes azulejadas e confirmá-la como que dizendo “sim, você não deveria estar aqui”.

E hoje ele aqui, na minha porta, frente ao meu pequeno polígono de lar, meu pequeno santuário, tocando furiosamente a campainha. Logo pensei no condomínio que deveria estar atrasado. Eu, ainda de pijamas, tive de pedir uns segundos para que pudesse me vestir. Vi através do olho mágico a sua impaciência. O porteiro o acompanhava. Talvez fosse mais sério. Não sei porque temo. Não faço grandes barulhos, não dou festas, não acho que a minha vidinha pacata aqui dentro incomode alguém ali fora, ou do lado de lá do corredor. Mas convivência sempre é difícil. Eu não deveria temer.

É engraçado como quando estamos apressados, ou nervosos, ou ansiosos, ou a soma destes, conforme eu me encontrava, não conseguimos executar absolutamente nada com vestígio de precisão ou perícia. Vestir uma saia e uma blusa se tornou aflição, os segundos que corriam e aqueles dois ali fora.

Quando coloquei minha cara feia, descabelada e sonolenta, mas tentando aparentar uma espécie de retidão e dignidade suficiente para falar com o xerife nos ares do oeste do condomínio, o maioral dentro do estatuto de convivência, tive de conter minha filha canina Leda, para que ela não se botasse a brincar simpaticamente com a sumidade. Pobre Leda, não sabe quão respeito devemos às essas pequenas autoridades ludibriadas com o alcance do seu poder. Nem um quarteirão, mas quantas vidas?

Era exatamente dela que reclamavam, da filhote. Repito: Pobre Leda. Ela tem um quilo e meio, dois meses e meio. É tão infantil que ainda não sabe latir. Passa os dias dormindo e me acompanhando. Mas mesmo assim, o coletivo anônimo com quem convivo é intolerante a ela. Decerto ouviram algum de seus ganidos, porque ela ainda é tão infantil que não suporta a solidão, e imagino que chore um pouco quando estou fora. Mas desde que a adotei estou de férias, então, em termos práticos, eu não fico fora de casa. De que eles reclamam?

A outra consideração era sobre o cheiro de substâncias ilícitas que andam sendo emanados na vizinhança. Eu sinto às vezes, no segundo andar, no corredor, mas nunca me interessei pela vida alheia e nem achei que os odores do corredor deveria incomodar-me. Às vezes tem cheiro de comida sendo cozinhada, às vezes tem cheiro de esgoto se despejando, às vezes tem cheiro quase nauseante de cebola sendo frita, às vezes tem cheiro de incenso e às vezes tem cheiro, exatamente, de ilícitos sendo consumidos. Aos outros incomoda. Agenor disse que estava passando de apartamento em apartamento para avisar aos moradores da nova resolução do condomínio: que se novas reclamações surgissem, a polícia poderia ser chamada e entraria dentro dos apartamentos para verificar a “situação”.

Era o que me faltava. Agora, corro o risco de ser invadida pelo defasado, incipiente e claramente corrompido órgão de segurança pública na retidão e placidez de meu lar. Isso, pelo bem do condomínio arrogante que perde parte do seu dia preocupando-se de onde é que vem a marofa. Isso é tão desnecessário e infeliz quanto os indivíduos que passam boa parte de suas vidas discutindo sobre em que buraco é que o pênis ou coisa que o valha deva ser enfiado. Eu só não desejo ser incomodada, ser contatada, ser visitada. É demais em um condomínio?

Conversas vão e vem, o porteiro tenta se tornar mais simpático e me conta das razões da medida: um traficante que habitava as dependências bridienses. [e após uns dias, quando resolvo dar uma olhada naquela papelada toda que o condomínio entrega, atas, reuniões, estatutos, tudo que eu não tive saco de ler anteriormente, eu descobri que nem foi aqui que aconteceu o sucedido do trafica, na verdade, foi tão longe de cá, que foi no continente, não na ilha.].

Continuo achando uma palhaçada. Mas eles são a autoridade, eu os respeito. Rio de suas piadinhas. Simpatia, simpatia. Intimamente pensava, com ironia que agora, quando eu quiser fumar, cigarros de tabaco legalizado, taxado, e quase tão criminalizado quanto os outros cigarrinhos do meu vizinho, vou ter que sair do condomínio. Ou esconder os maços quando sair de casa, pois meu apartamento pode ser “estourado pelos hômi” e sabe-se lá qual a penalidade pra ter cigarro em casa hoje em dia.

A consideração final, incontestável, irrevogável do cínico síndico: “Leve a cachorrinha aonde você for. O condomínio não quer ser incomodado.”

O condomínio, essa entidade...

Jun 29, 2008

chove no meu varal.

chove oblíquamente nas roupas que eu há pouco me esmerei a torcer e estender.


chove, chove, as fazendas cheirosas de limpas em contato com a água do céu, as fazendas que não secarão. eu queria uma chuva que além de molhar os panos que meus braços acabaram de imacular, lavasse minha alma. lavasse dos desesperos, lavasse das metidações, lavasse de todo esse vazio triste e mórbido que se põe no recinto. agora. e chove lá fora.


***


não é semente, as coisas não funcionam sempre assim. você planta, rega, colhe. assim é simples demais.


quantos brotos a terra úmida demais ou seca demais engole? quantas boas intenções de vida vegetativa ou inflorescente... queria que tudo funcionasse como terra boa e clima ameno. assim, você atira o germe no chão, conversa com ele, lhe dá atenção e ele cresce, cresce, ocupando toda a vastidão, fura o céu pra poder se expandir.

mas não, não.


a metáfora da semente não funciona. há sementes podres que parecem boas, há chão, bicho, inseto, praga, doença, ferrugem. e nem as conversas, e nem o carinho, e nem a água clara e brilhante que sai do regador são eficientes contra tanto mundo a atacar a plantinha.


***


certas feitas, ‘inda infante, achava que se eu imaginasse uma coisa com muita força, por muito tempo, segurando bem e firme a respiração, assim, de estalido, de "puft-póim", só uma onomatopéia, e a coisa se tornaria real.

***

chove na roupa molhada. não tento mentalizar forte que pare a chuva, nem implorar que sequem as gotas. deixa a chuva que desfaz meus esforços em lavar as roupas. deixa chover gotas de cristal pra depois sair todo esse monte de cinza feio do céu.

volta o azul. não volta. ainda. a música é uma abstração que salva a alma. as gotas são música, ora ou outra ave louca. eu poderia escrever cartas e não me apegar tanto às pessoas. falar-lhes de longe apenas. mas preciso vê-las, sentí-las intimamente, rosto-rosto, sorriso - sorriso.


***


ahn, as coisas, as coisas, poderiam ser mais certas as coisas. poderiam ser mais exatas, seguir qualquer curso, não precisa ser exatamente o que eu planejo e espero, mas um curso indeterminado que ao menos parecesse curso. não coisas como objeto, não coisas que se pega. sabe-se: "as coisas", essas meio peculiares da existência, as vicissitudes da vida. ou ainda, para quem prefere generalizá-las em uma única e massiva: a coisa. "como anda a coisa?" ahn, mas a minha não anda. ela tropeça, ela cai, ela corre às vezes e de outras prefere parar e estagnar. a coisa num dia chuvoso não é bem coisa. é só o resto da coisa, o dia cinza de nada.


***


queria acalento, não tenho. nem voz amiga. quando se quer essas coisas necessária a um pouco de dignidade de espírito - e não se tem - é possível sentir-se o mais puro nada. um vácuo que aguarda um cafuné que seja. não dá pra pedi-lo às portas ou aos objetos, eles não respondem.

peço afagos à chuva, gelados, incidentes, gotinhas de flecha. não quero coisas, nem ter de pensar muito, quero o meu vazio de nenhuma sensação, o meu vazio dos não-insights, o meu vazio do que não houve.


***

talvez me dê acalento, a chuva. talvez se eu pensar e desejar com bastante força. Assim, “puft-póim”.

Mar 3, 2008

mundo, mundo, vasto mundo.

me chamar raimundo parece piada pra apontar solução, desculpas ao gauche. Solução – suspiro resignado – só em ficções científicas, talvez.

no oriente explosões, bombas, fumaças, corpos decepados, caos. é irônico, assolador de esperanças, o fato de o pequeno agregado de terras do crescente fértil, esse montante entre rios, exatamente onde a civilização - historicamente analisada, advinda da invenção da escrita, mais propriamente - tenha surgido. agora está assim, do jeito que sabemos que está e que, separados pelas alcunhas de orientais e ocidentais, bem nos bastamos a dar de ombros. assusta.

no ocidente, os mesmos males modernos. aliás, corrijo-me, pós-modernos. os sentimentos de irmandade américo-latina vêm abaixo. ruem. conflitos que a boa vontade não resolve, narcotráfico, troca de tiros de metralhadoras que matam sem pestanejar. Matam sem limites. Fidel abdicou, ou estou louca? devo estar louca, pois Fidel abdicou. a mão avaramente adunca largou o cajado do poder. trêmulo, o general pendurou a farda e vestiu o pijama. e as pantufas.

solução, solução. nem querer, se quer mais. um pouco de paliativo, paz, apaziguamento, talvez console. o salário mínimo aumenta inverossímeis trinta e cinco reais. isso não é paz. é piada.

apontar uma luz, segurar uma lâmpada elétrica pra alumiar um pouco dessa treva e horror. talvez a visão do real desperte um pouco de repulsa, náusea e horror. quando sucessões de tragadas de cigarro não bastam, não contêm o ímpeto, respirar direito não alivia a ânsia de regurgito. ainda assim, segurar a lâmpada. a luz, uma fonte de luz. clarear as trevas, ter estômago - esse órgão da tristeza, esse órgão que engole, digere tristeza - para agüentar a visão do que a realidade se tornou. ser forte o suficiente.

as coisas como são e se tornaram doem. não querer vê-las, tamanha sua feiúra, tamanho o fedor de suas mazelas e entrâncias, é até compreensível. mas é, antes de tudo, uma traição à vida, ao que a vida é. é como renegá-la, simplesmente. não dispor do que a existência mais implora: coragem. coragem o suficiente pra não abandonar o posto.

***

...e o completo oposto disso tudo.

coisa mais bonita: na primeira transmissão de ondas sonoras aos recônditos do espaço, a asséptica nasa escolheu como canção "Across the Universe", Let It Be, Beatles, John. das profundas, significativas mesmo uma coisa dessas, arrepiante. eu, de bom grado, satisfeita inclusive, deixo o meu amado fab four falar por mim, uma voz universal, e mandar a mensagem de minha raça [divagações com tendências ficcionais incríveis a parte] e espalhar como mensagem: Jai Guru Deva Om. Indo, indo longe, indo para através do universo. Ondas de melodia que transcendem à paz. Aqui tem guerra, mas mandamos paz.

eu suspeita pelos pôsteres e pelas manias de beatlótatra [um vício que não desejo abandonar], não queria que outra coisa fosse dita.mesmo na nasa, nos malvadões states, mesmo que esse fato seja distante da minha realidade e pouco afete minha rotina, praticamente me servindo de nada, me faz bem. é poesia, não é?

...nothing's gonna change my world.

Feb 26, 2008

só para os raros.





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se eu fosse abrir um bar teria o mesmo nome do meu club virtual. não seria exatamente um bar, bar, onde só se serve cerveja e se divague e coma nas mesinhas redondas. um bar, que sendo bar ao mesmo tempo despertaria algo mais. convidaria a algo. seria mais um teatro. mas não propriamente. teria a classe, a tensão lúcida a cultura vivída de um teatro. e ao mesmo tempo o tom profano, a vagabundagem, o ócio que só se encontra nos melhores botecos. jogatina permitida, mesas de sinuca. el club silencio.

as bebidas seriam efervescentes, nada tão caro. drinques coloridos. mas cerveja em canecos bem grandes, canecos de vidro pra empunhar como uma taça. preços razoáveis e diversão etílica ou seu dinheiro de volta. mas nem só de surdina, madrugada e trago vive o homem. há de se ter cafeína, bebidas fumegantes e bons cigarros pro papo vespertino. uma meia luz feita com cortinas de veludo grossas e janelas abertas por onde penetra em difração a luz solar vespertina. ar intimista, onde as melhores prosas, as mais longas, que perduram toda a tarde poderiam ser discorridas.

uma decoração vermelha. azul. veludo coquetelê. talvez até uma boneca de cabelo azul no andar superior. talvez eu até remonte cabarés boêmios na decoração. os fumantes não seriam relegados a alas anti-sépticas. as pessoas sabem se organizar naturalmente, é a vida em sociedade, cada um bem sabendo o que deseja pro seu nariz. de um círculo vermelho a um arrebitado prepotente. e quem se importa tanto com a fumaça do cigarro alheia, certamente não desejaria freqüentar silencio.

as atrações, sem chamariscos comerciais, seriam das mais diversas e envolventes. saraus, shows, peças, recitais, o que se quiser fazer no palco. e o palco é aberto a quem tiver coragem de encará-lo. a quem tiver humildade suficiente, também. não quero vender bebidas a preços exorbitantes e lotar a minha casa. "casa cheia" só se for de descontração e boa gente. isso tudo não tende em nada pras "baladas" modernosas que têm por aí. el club silencio está a salvo delas. Não é “night”, é madrugada, é noite, é escuro. “azaração” é barrada na portaria.

mas o melhor de tudo, a verdadeira essência do club silencio, o que lhe importa mesmo e o que o manteria muito além da construção de concreto e de um caixa cheio seria a gente. el club silencio não exige nada de ninguém para entrar, nenhum centavo, nenhum pré-requisito. Todos à vontade, cheguem mais perto! mas mesmo assim, não bastaria ser qualquer um. não bastaria ter montões de dinheiro pra gastar, não. as pessoas seriam escolhidas por sua espontaneidade, pela naturalidade dos gestos, pela simplicidade. pro club silencio não conta de nada a eloqüência, os bons modos, a vastidão cultural, os saberes e os termos coerentes. pro club esses valores de "fila anda" e "pegação" não valem de nada também. Nem pequenices da classe média, nem maldade, muito menos a futilidade.

vale a loucura, sim, a loucura pessoal, a insanidade genial que há no âmago de todos que se deixam levar, a tendência a ser o que se é, a humildade - por favor não a modéstia - a despretensão. no club silencio vale quem silencia, mas quem não sabe calar também.



"só para os raros", algo assim, talvez, como Hesse. afixado na porta, sem nenhuma proibição. quem é raro saberia e inevitavelmente entraria. quem se importa com uma plaquinha citando Hesse na porta da frente certamente sentiria que ali é o lugar onde deveria estar. só para os raros, a única publicidade.