Feb 26, 2008

só para os raros.





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se eu fosse abrir um bar teria o mesmo nome do meu club virtual. não seria exatamente um bar, bar, onde só se serve cerveja e se divague e coma nas mesinhas redondas. um bar, que sendo bar ao mesmo tempo despertaria algo mais. convidaria a algo. seria mais um teatro. mas não propriamente. teria a classe, a tensão lúcida a cultura vivída de um teatro. e ao mesmo tempo o tom profano, a vagabundagem, o ócio que só se encontra nos melhores botecos. jogatina permitida, mesas de sinuca. el club silencio.

as bebidas seriam efervescentes, nada tão caro. drinques coloridos. mas cerveja em canecos bem grandes, canecos de vidro pra empunhar como uma taça. preços razoáveis e diversão etílica ou seu dinheiro de volta. mas nem só de surdina, madrugada e trago vive o homem. há de se ter cafeína, bebidas fumegantes e bons cigarros pro papo vespertino. uma meia luz feita com cortinas de veludo grossas e janelas abertas por onde penetra em difração a luz solar vespertina. ar intimista, onde as melhores prosas, as mais longas, que perduram toda a tarde poderiam ser discorridas.

uma decoração vermelha. azul. veludo coquetelê. talvez até uma boneca de cabelo azul no andar superior. talvez eu até remonte cabarés boêmios na decoração. os fumantes não seriam relegados a alas anti-sépticas. as pessoas sabem se organizar naturalmente, é a vida em sociedade, cada um bem sabendo o que deseja pro seu nariz. de um círculo vermelho a um arrebitado prepotente. e quem se importa tanto com a fumaça do cigarro alheia, certamente não desejaria freqüentar silencio.

as atrações, sem chamariscos comerciais, seriam das mais diversas e envolventes. saraus, shows, peças, recitais, o que se quiser fazer no palco. e o palco é aberto a quem tiver coragem de encará-lo. a quem tiver humildade suficiente, também. não quero vender bebidas a preços exorbitantes e lotar a minha casa. "casa cheia" só se for de descontração e boa gente. isso tudo não tende em nada pras "baladas" modernosas que têm por aí. el club silencio está a salvo delas. Não é “night”, é madrugada, é noite, é escuro. “azaração” é barrada na portaria.

mas o melhor de tudo, a verdadeira essência do club silencio, o que lhe importa mesmo e o que o manteria muito além da construção de concreto e de um caixa cheio seria a gente. el club silencio não exige nada de ninguém para entrar, nenhum centavo, nenhum pré-requisito. Todos à vontade, cheguem mais perto! mas mesmo assim, não bastaria ser qualquer um. não bastaria ter montões de dinheiro pra gastar, não. as pessoas seriam escolhidas por sua espontaneidade, pela naturalidade dos gestos, pela simplicidade. pro club silencio não conta de nada a eloqüência, os bons modos, a vastidão cultural, os saberes e os termos coerentes. pro club esses valores de "fila anda" e "pegação" não valem de nada também. Nem pequenices da classe média, nem maldade, muito menos a futilidade.

vale a loucura, sim, a loucura pessoal, a insanidade genial que há no âmago de todos que se deixam levar, a tendência a ser o que se é, a humildade - por favor não a modéstia - a despretensão. no club silencio vale quem silencia, mas quem não sabe calar também.



"só para os raros", algo assim, talvez, como Hesse. afixado na porta, sem nenhuma proibição. quem é raro saberia e inevitavelmente entraria. quem se importa com uma plaquinha citando Hesse na porta da frente certamente sentiria que ali é o lugar onde deveria estar. só para os raros, a única publicidade.

Jan 12, 2008

"Vivendo e aprendendo a jogar"...

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É o jeito. Cair, esmurrar, debater e, se possível, da melhor forma. Tentar amenizar os danos e... ...sim, aprender. Ter humildade pra isso, pra até tomar notas das lições, quando necessário. Mas excetuadas as filosofias, se a frase for entoada por Elis, sim, entoada, porque a Elis não se contenta e exibir o vozeirão, as firulas da garganta forte, ela também interpreta como ninguém; e no vinil, então, é só delícia pra audição. Um amigo, dos que conseguem ser engraçadíssimos sem tentar sê-lo, sem fazer “palhaçada” nenhuma, só falando com seu sarcasmo e leve carranca, mas leve, um semblante entre sisudo e divertido, me disse que, fisicamente, as ondas sonoras produzidas pelo vinil são mais perfeitas e “cheias” do que as produzidas pela leitura de um cd ou coisa que o valha. Fiquei feliz. Até que enfim posso comprovar porque ainda sou tão saudosista e só gosto de música vinda desses enormes e negros discos.

O verão não entra pela janela, nenhum pouco de sutileza. Invade, corrompe teto, janela, parede de tijolos sem furos resistentes até à maresia, mas claro que frágeis a essas ondas tão, tão quentes. A ilha ferve no mar morno, qual se estivesse em um caldo flamejante. Gente, gente, gente. Todos quase nus, contentes, crianças de todas as partes construindo castelos, fortes, muralhas, reinos da imaginação, correndo no mar, caindo nas ondas, chorando desesperadas. Crianças de todos os tipos brincando aos montes, às levas. Coisa mais bonita? O verão da ilha de Flor[ianópolis] é, certamente, caro ao imensurável pro monte de turistas. Gente disposta a pagar por diversão. Mas bonito, festivo e feliz, não há de se negar. Seria mais bacana ainda se toda essa gente de fora demonstrasse que lá de onde vêm se tem educação e bons modos. E pelo menos não sujassem a praia com porcarias, bitucas, papéis. Mas isso é um capítulo à parte, importantíssimo embora, especialmente considerado quão medonho é ver um marzão azul vomitando sujeira na praia.

E eu corrompida pelo despudor, corrompida pela efervescência quis também me dar ao luxo de ser um pouco turista. Por certo que não poderia pagar os preço que eles pagam nas praias visitadas ao fervor durante a temporada. Mas fui em uma das mais visitadas. Uma caipirinha num copo americano custa seis reais por lá. Um roubo, se visto o tamanhinho dela. Eu que gosto de apreciar da água russa, então, precisava de umas três só pra matar a sede. Não que eu exagere, é que os copinhos eram de licor! Mas paguei, paguei o preço delas até porque eu precisava do guarda-sol pra proteger minha brancura de recém voltada dos pampas do ensolarado e perigoso meio dia. Tinham alguns para serem alugados, mas, por certo, caros ao extremo também. Fico eu encolhida no guarda-sol do barzinho, na mesinha de plástico, tudo diminutivo de fato, degustando das caipiras. O mar – como pude tardar tanto a falar do mais importante? – o mar estava límpido, brando, algumas ondas grandes só pra divertir e assustar um pouco, mais lindo de ver. Dava pra enxergar os pés mesmo quando a água já batia no queixo. Dava pra mergulhar de cabeça e se deixar levar, como poucas coisas na vida ainda o permitem.

Na costa de areia branca tinha. Por algum motivo todos os turistas se aglomeravam em um único ponto. Tinha gente bonita, gente feia, velha, nova, divertida, carrancuda, bêbada. Todos unidos pela indistinção de umas sungas e uns biquínis. O calção do juiz é igualzinho ao do vendedor de picolé. As sungas, todas indubitavelmente transformando a maioria das formas masculinas em visões do grotesco. Não digo todas, mas a maioria. Todo mundo fica igual nessa situação de verão, na mesma condição. Todos só querem um lugar ao sol, uma cadeira ou canga à sombra, água fresca e um pouco de paz e cerveja gelada. Os guarda-sóis que já viram muitos verões gastos por igual. Não há quem não mereça isso, na verdade. Uma tardezinha de diversão. Jogar bola na areia, jogar o corpo na areia, jogar areia no outro e depois se arremessar furando ondas pra limpar todo o croquete das pernas. Não precisa exagero, nem dispêndio, nem bebidas caras, nem camarões no bafo, só disponibilidade pra alegria.

Hoje, hoje chove e venta bem forte. É sábado, mas não de sol, o que contraria uma premissa. O sol, exposto, queima, queimou-me. Nem adiantou gastar fortunas com caipira pra desfrutar de uma sombrinha naquele descampado enorme de areia, água e beleza. Pelo menos nos ardores nas costas, nos repuxões da pele vermelha pulsante, posso me lembrar de um pouco de felicidade iluminada pelo sol que tive. Que cobrou seu preço, como tudo o faz, incluindo o próprio ato de sorver e expirar o oxigênio, o ato mais vital. “Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”.

Dec 29, 2007

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Martin Munkacsi.




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Quer dizer, muito disso que a gente vive é feito de repetição. Diária, rotina, segunda-terça-quarta-quinta-sexta, lá ou cá, viajando ou em casa, de sofá e moletom grande, a tv ligada mas sem som, a tv moderna muda, imagens refletidas na sala. Somos todos repetitivos, exaustivos por isso, mas por mais que tal repetitividade remeta imediatamente à "chatice", sem elas somos incapazes de existir. Eu sou.

Todo o dia o "viagra social" (paroxetina das genéricas, azuizinhas, inclusive). Todo o dia o anticoncepcional caro e de dosagem baixa de hormônios pra não inchar, ter tpms estrondosas e me aurar de espinhas purulentas. E ai de mim se um belo dia me revoltar contra minha medicação. No mínimo terei uma crise depressiva por falta de neurotransmissores e odiarei ao mundo, à vida e à existência, e até à arte, sem nenhuma razão aparente. No máximo terei um filho, com tudo que é um filho, o imensurável de gerar uma vida que, se mesmo dependente à própria, é alheia. Certas vezes me pergunto se já não estou como um daqueles loucos institucionalizados tão recorrentes no cinema. Aqueles que entram na fila indiana afoitos pelo copinho de café plástico descartável contendo coloridas, pequenas e deliciosas pílulas.

Mas, claro, eu jamais domaria meus rompantes insanos e lúdicos ou minha loucura perene a base de repetição. Talvez até conseguisse, se tentasse e quisesse. Mas peço “oxalá!”, me livre e guarde. Se os dias jamais me surpreendessem e toda a minha vida fosse de disciplina e rotina feito a exigência de meus remédios eu já estaria morta. É um conceito interessante pra morte, não? Uma coisa eterna e cíclica, hoje-ontem-amanhã não existem, são o mesmo e não são.

Se a metade mais um, uma maioria pequena da vida é do que certamente se fará sempre e desprovida de qualquer rota possível de fuga - das funções vegetativas às manias - há a metade menos um é do que pode ser novo. Pode, é só uma possibilidade. Na verdade é uma escolha. Pode-se abrir os sentidos, os olhos, os ouvidos, sentir e aprender e observar atento a novidade. Pode-se até abocanhá-la de uma só vez. Mas em oposto, completo oposto, há a reclusão, a soberba, o medo e a maldade de espírito, as mesquinharias bem pequenas e vermelhas. E se elas estiverem no recinto, o novo nem bate à porta, nem chega em frente ao portão. O novo é necessário, alguns o sabem outros o ignoram. O novo quer ser bem recebido, quer atenção. O novo é indispensável pros aventureiros, ainda bem que existe gente que se alimenta de reciclagem e aventura.

O mais fascinante de tudo é que mesmo que a novidade seja geniosa quanto ao estado do espírito que irá recebê-la, ela também é simples e gosta de dar as caras exatamente no que é visto, feito ou vivido todo o santo dia. Uma flor de nova cor, as pétalas numa abertura um tanto tímida, a formosura plena ainda por vir...; é sempre novo. Um mesmo beijo não é compartilhado quando se tem amor, amor intenso e completo como só pode ser o amor quando é amor, os amantes trocam carícias pelos lábios que são sempre descobertas, as sensações de arrepio sempre novas. Uma poesia relembrada na memória agora mais cheia e cheia de coisas e vivências não é a mesma poesia, as palavras saltitam e alcançam diferentes lugares do corpo, da mente, da língua. Uma sobremesa pode ter até a mesma dosagem e os mesmos ingredientes da outra que se experimentou na semana passada, creme de leite, biscoito e chocolate, mas o carinho e trabalho de quem a preparou certamente trará sabores novos às papilas. E também o vinho, o suco, o almoço que seja de arroz e feijão. A vida se desabrocha, a novidade é como ondas de cor no ar, que só consegue ver quem quer. Um mesmo rio não é visto duas vezes.

Dec 14, 2007

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a uma pequena que destila traquinagem, pequena com brasa nos dedos e nos pés, que saltita pelo mundo, bonita e faceira e me faz sentir saudades.



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Ahn, pequena, tu mereces um consolo. Se eu pudesse, encontraria alguns na relva, colheria sentenças reconfortantes, as cataria nas ramagens mais altas ou no meio da vegetação mais densa. Mas sequer as tenho mentalmente, para que eu possa soletrá-las, que seja, inaudível. Eu só posso ser ombro e ouvido agora, não voz. Que poderia eu dizer-te? Que esse mundo que se apresenta duro e cruel pode ser também divertido? Tu já o deves saber. Mas posso te falar que há extremidades longínquas dos dois lados, duas faces eqüidistantes e proporcionais, que são - e ao mesmo tempo não - da mesma coisa. Mas o sofrimento pode não ter fim, não, sofrer não encontra limites ou barreiras. É um estado amplo e pleno onde se só chega por querer, se sabe o caminho. Quem é que escolheria sofrer?

E eles levarão tua alma dia após dia, te pegarão cansada e desprevenida e mesmo assim, com todo o despudor, te chutarão em cheio nos rins. Eles nunca têm alma, semblante ou uma característica sequer que se possa recordar. Mas hora ou outra, entre um chute, entre uma pedrada, entre uma peça pregada pela vida, armam-se os espetáculos. Vê os vira-latas na rua, como cheiram as partes podidas uns dos outros curiosamente e como logo brincam e correm e rolam. Os bêbados, porque eles sempre gesticulam pro nada? Estão dançando nas calçadas, atirados na esquina, ébrios, rindo, talvez de quem passa cabisbaixo e sóbrio. Os homens altos de birita flutuam, voam no céu, enquanto todos acham que eles estão cambaleando no chão.

Talvez tu possas vir a saber demais – o que, embora gratificante, é também doloroso – talvez de menos, o que de certa forma é uma bênção. O fato é que cada novidade - tempestiva ou fortuita - te será de lição. Há lubrificantes pras mais pesarosas, toma um cigarro, bebe um gole. Gostaria de te dizer que isso sempre funcionará. Seria tudo mais fácil, inclusive. Mas as engrenagens sempre tendem a endurecer. A enferrujar. E outra ou outra os paliativos que untam e lubrificam a massa toda ficarão pastosos, um ranço na boca que Baco não quer abençoar. Bebe assim mesmo, engole. Acredito firmemente que é necessário se estar bons tempos bêbado, não importa se de cachaça ou amor. É quando a vida é tão trêmula que te embaça a visão, quando o mundo gira tão alto que tu te sentes tonto. E o alcalóide e o prazer. Medi-lo? Não há como. Nem evitar. E não queira abdicar dos seus prazerezinhos de fim de tarde, os rotineiros, aquelas vicissitudes que a gente cultiva a vida toda em nome de um ideal maior. Ao menos pensa-o e remoe-o bem antes de fazê-lo. Os nobres ideais andam sumidos, quase inexistentes. Dos que restaram, uma parte é caquética como veteranos de guerra idosos e enlouquecidos, querendo resolver as coisas de seu modo bruto – vivendo num mundo a parte, degenerados pelo tempo e carentes e razão – uma ideologia que nem convence, mas a outra, embora travestida de novos ares e que até pode vir a impressionar é só aquilo que já se foi e que deveria estar abaixo da terra juntamente do passado à qual pertence. Melhor mesmo é tratar de formular um próprio ideal, um “auto”, que te pertença e condiga exatamente aos seus anseios, nem mais e nem menos. Algo teu. A tua vida te pertence, dessa forma, suas crenças também devem partir de ti.

Só posso te dizer pra conservar o que é bom. A beleza apodrece, a beleza desmancha, a beleza se desfaz em pelancas e tristeza. Os frutos tenros são passageiros, a maturidade os torna moles. Todavia há memória grande pro que há de imutável. Há quimera, música, dança, cena, poema, flor. Há satisfação em algumas coisas. Mesmo que falem sem parar aos ouvidos, mesmo que te aborreçam e te entristeçam, que fofoquem camelices, não leiam jornais nem livros, não sintam o cheiro da terra molhada, da tarde de ensolarada e nem o queiram, mesmo que não parem pra olhar o céu, descobri-lo, ou mesmo, nos exageros, que todo e qualquer humano te pareça monstruoso dia ou outro, ainda há gente que fascina, encanta e nos faz querer estar perto [ou até mais perto se perto, se me entendes]. Conversas bacanas, algumas bem leves, outras que conseguem transformar brisa branda em chumbo. Gente que faz bem, que faz mal, mas mais bem que mal. Não é balança. Jogar fora o que passou e ficar com os lucros, se houver algum. Há gente que prefere sonhar ao invés de afundar na maré. Gente que sabe consolar quando é necessário.

...Eu não sei. Serve-te meu colo, meu ombro, minha pele bem pressionada contra a tua? Posso te dar uma tarde também, passearemos e falaremos coisas que ninguém entende. Um vocabulário nosso, os risos também são verbetes e uns diferem dos outros, cada qual com seu significado.

Há dor e poucas vezes contorno. Há curvas, turbulências. Há tardes que chove e que não se encontra nada pra fazer. Há tédio, náusea, lástima, dureza. Mas força, pequena, há arco-íris no céu depois da chuva, há vaga-lumes aparecendo e desaparecendo, indo prum mundo que não se pode pensar, só idealizar de relance. Pra onde vai a luz enquanto os pontos piscam?

Há coisas que não mudam nunca e outras que sempre mudam. Por exemplo: se o formato de meu ventre, se meu colo e meus braços perderem a forma, ficarem pálidos e tristes, sem vigor, mesmo assim, mesmo completamente diferentes dos que já foram, eles sempre serão abertos e esperarão que você se delineie e se enfie embaixo deles. É como um canto de mundo que você já possui, já conquistou. E que lhe será sempre disponível. Todo o inominável sempre.

Nov 27, 2007

Sobre a pobre pequena no Pará [e ainda sobre as mulheres]

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Cena corriqueira e cotidiana: uma feminista é tida como chata e recalcada. Ao mesmo tempo, garanto, em diversos lugares. Ainda há o estigma, a rotulação que titula feminista de mulher teimosa, chata e possivelmente descontente com sua aparência física e/ou assexuada. São os lugares comuns incorporados e reincorporados na sociedade como uma praga. O feminismo real só clama dignidade e justiça. Só vê fatos. Mulheres são mulheres. Homens são homens. Negros são negros. Gays são gays. É a diferença. Pedir e bradar por mais dignidade para gêneros sabida e historicamente desfavorecidos, medidas que os assentem e que exaltem exatamente as iniqüidades não é nenhum ato estapafúrdio. Antes um gesto bonito, nobre e importante.
Tá aí o Pará, latejando no meu estômago e ardendo no meu coração. Provavelmente no de todos. Uma CRIANÇA de 15 ANOS. Uma pequena atirada ao seu azar em uma jaula com vinte fascínoras viris varões capazes de atrocidades que despertam repulsa. Durante vinte dias a menininha foi incessavelmente abusada. Um estupro só, praticamente único, que durou absurdos vinte dias. Junto à fome, aos maus-tratos, à desgraça. Era uma criança sendo devorada aos poucos e ninguém viu. Dizem, seus conterrâneos que ela gritava, nas entrevistas que vi na TV. Um castigo hediondo e cruel, que não só aflige os direitos das crianças e das mulheres, como os humanos. E qual foi o crime mesmo? Aliás, importa?

Descobriram já que não foi só ela a mulher desprezada pela lei – que deveria, ironicamente, garantir os direitos das próprias – no Pará. Brotam pelos cantos casos como esses por lá. Eu me estarreço mais ao constatar que a senhora governadora é uma espécie do gênero feminino, o que ao menos deveria garantir um pingo da sensibilidade característica. Quer dizer que naquelas bandas a mulher que estiver devendo às leis e à ordem pagará com castigos que a ferirão não só fisicamente [hediondamente, como mostrado com a menor], mas moralmente, e perderá por completo dignidade, por todas as cidades? Que tipo de retrocesso desumano é esse que assola o norte do país?

Se as feministas são chatas, elas vêem que há raízes profundas de desvalorização, desfiguração e desrespeito às mulheres. A cada quantos segundos uma nova é espancada no extenso Brasil mesmo? Com que freqüência por minuto ocorre um estupro? Quantas vezes uma garota se submete a sentenças machistas ou se sente violada e desrespeitada diariamente? Quantas vezes se sente insegura e frágil diante de uma sociedade que teima em se manter voltada a um paternalismo caucasiano? Além do quase destino cármico que se estabelece na vida de uma mulher negra no país, segundo as estatísticas, que só escapará da sina de empregada doméstica com muita garra e determinação. Ganhar menos do que os homens é outra realidade que também assola, mas que até parece menos preocupante quando consideradas todas as outras rodas do moinho dessa estrutura social corrompida desde sempre.
Não vi, mas dizem os jornais que a compleição física da pobre menina do Pará era de ainda mais jovem do que sua idade real, míseros quinze aninhos. Na matéria, o pai dela conta que foi ameaçado pelos policiais do município para que falsificasse a certidão de nascimento, transformando a jovem em maior. Caso contrário seria preso. Não vi, mas imagino doloridamente a menina sendo deflorada por todos os instantes, imagino o medo, a dor, a raiva, a angústia, o abandono que ela sentiu. Não vejo, mas tento vislumbrar um jeito, uma saída, pra todas essas falhas aterrorizantes, essas maldades geladas, essa menina que deve estar trêmula de trauma. Pra ela, o mal já está feito, as chagas já foram abertas, reabertas, penetradas, maltratadas, queimadas a cigarro, violentadas. Quantas novas chagas por aí foram abertas e reabertas enquanto eu escrevi estas linhas?

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Oct 29, 2007

O Artista da Fome

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Não é mito. Se Kafka delineava o artista que se compraz de sua fome e a exibe em praça pública, definhando por trocados, há os que, a despeito da miséria do estômago e dos miúdos ressequidos fazendo ruídos em todas as escalas e tons, ainda assim, zonzos de fome, se dedicam ao processo mais sublime, perfeito e puro possível de execução por um humano: o de criar, artisticamente. Que embora só arte transcenda o espírito, só arte recrie vida tão perfeitamente a ponto de dar sentido a ela própria, embora só, exclusiva e somente, a arte, juntando poesia, despeito, drama, sons, cores, acordes, formas, curvas, histórias, alegrias inesperadas e espontâneas, e principalmente, a humanidade mais frágil e escorregadia a pele, essa essência que faz sentir o interior ainda é de pouco valor nesse mundo capitalistamente previsível, consumível e prestes a deterioração em que habitamos.

Sair à rua, na praça. Lá está o músico com seu chapéu onde reluzem duas ou três moedinhas. Talvez simbólicas. As músicas, melodiosas e ressonantes, cuja beleza possivelmente seja potencializada por causa da melancolia que as toma E ao lado vestidos em preto, couro e taxas pontiagudas, jovens vendem poesias escritas na ânsia incontível, hormonal e rebelde da adolescência. Sim, eles tentam vender o que não se comercializa, o que, por todos os céus não é comprável, que só se pode aspirar pelos poros e sentidos. Absorver. E no meio de todo fluxo da cidade, toda a massa anônima em passos rápidos e agitados, existe uma esquina prosaica, um casarão antigo, naquele cantinho de rua está o velhinho branco pintando imagens do colorido e quente litoral que o berça. Só retrata dias alegres, quentes do sol que curtiu a cútis do homenzinho franzino. Mas ninguém compra, ninguém sequer olha pro músico que tenta tocar sua seresta no tráfego, ninguém percebe os poetinhas marotos que querem comprar seu vinho, o velhinho está esquecido na esquina que sequer a memória do litoral lembra.

Artistas que não optam pela miséria, mas que, atirados em seu lodo, se deixam naufragar a tal ponto que só nela conseguem o distanciamento de todos os rótulos, caprichos fúteis, contradições vis que regem a forma como a conduta humana se estabelece. De ventre seco, à noitinha, sem almoço as maiores almas poetas conceberam letras para as quais nem o próprio pensamento está pronto.

Vide tudo isto, a explanação toda que eu discorro sobre os que, se famintos de alimento e dignidade, fartos em lirismo, em dons e em espirituosidade, e é só, e apenas, para introduzir um poema do peruano que personificou a idéia de artista da fome. Quem mesmo de bolsos furados e vazios, transcendeu à matéria e ao ter, concluindo uma produção inovadora, marcante, profunda e, sobretudo, de humanidade e talento comovente.


“ - Senhoras e senhores, el club silencio satisfaz-se em apresentar César Vallejo em uma de suas melhores performances, com o poema ‘Considerando en frío, imparcialmente...’”













Considerando en frío, imparcialmente...




Considerando en frío, imparcialmente,

que el hombre es triste, tose y, sin embargo,

se complace en su pecho colorado;

que lo único que hace es componersede días;

que es lóbrego mamífero y se peina...


Considerando

que el hombre procede suavemente del trabajoy

repercute jefe, suena subordinado;

que el diagrama del tiempo

es constante diorama en sus medallasy,

a medio abrir, sus ojos estudiaron,desde lejanos tiempos,

su fórmula famélica de masa...



Comprendiendo sin esfuerzo

que el hombre se queda, a veces, pensando,

como queriendo llorar,

y, sujeto a tenderse como objeto,

se hace buen carpintero, suda, matay

luego canta, almuerza, se abotona...



Considerando también

que el hombre es en verdad un animaly,

no obstante, al voltear, me da con su tristeza en la cabeza...



Examinando, en fin,

sus encontradas piezas, su retrete,

su desesperación, al terminar su día atroz, borrándolo...



Comprendiendo

que él sabe que le quiero,

que le odio con afecto y me es, en suma, indiferente...



Considerando sus documentos generale

sy mirando con lentes aquel certificado

que prueba que nació muy pequeñito...



le hago una seña,

viene,

y le doy un abrazo, emocionado.

¡Qué mas da! Emocionado... Emocionado...






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Oct 15, 2007

Confissão

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Rita pegou o papel na parada de ônibus. Remexeu, remexeu a enorme mochila até encontrar um bloco grosso de folhas brancas, limpas. A primeira letra que leva à segunda e à terceira. Verbo puxa verbo. Assim sempre fora a forma como escrevia: vinha o impulso incontrolável, descabido até, em determinadas situações. E aí, ficava só papel, caneta e enxurrada. A caligrafia absurdamente ilegível. Uns rabiscos rasurados, censurados, trêmulos. Não havia tempo para se esmerar na forma, tinha todo o conteúdo de seu peito a expressar. Na cadência que se estruturou, viu que confessava particularmente como era, tendo-lhe como única expectadora, única ouvinte. Na parada de ônibus, não viesse mais ônibus, nem escutava os barulhos e os gritinhos das crianças indo para a escola, nem as conversas de vizinhas íntimas e inocentemente maldosas. Queria que sua prece, sua oração exclusiva que o impulso não deixava acabar, se concebesse líquida, fluída. E branca e alva. Eram pequenos versos, alguns joguinhos verbais, que de estalido se findaram. Talvez pegajosos, talvez fluídos, talvez alvos, talvez carnais. Eram seus.























[...]





Sou bicho. E capricho.
Uma eterna caçada de profusão
Até onde
Há quietude.
Sou mata, mato,
Morrer.
Orações pegajosas entregues nos
Panfletos, papel amarelo na ladeira
De onde descem
Os meninos
Escuros.

[...] Escuro.

Sou manhã fria, manha, preguiça,
Tarde primaveril, chuva leve ao
Anoitecer, a cantiga de ninar em
Assobios que fazem calar.

Ahn, e sou capacho,
Um escracho em que
Se pode pisar,
Sem vestígio
De receio.
Um pedaço de pelúcia
Rasgado, estirado,
No chão sujo.
Quem lambe as solas
Das chinelas, ou ainda,
Aquela que se indigna com os pavores do mundo.,
Levanta, e se põe a sapatear
Por sobre cada um dos calos
Alheios.

...freneticamente...

E nessas crises de ego, de alma.
De existência que chegam pela porta da frente,
Eu não posso, não creio
Ser nada.
Um pequeno agregado de vácuo
Na poltrona, a não matéria cabisbaixa,
À beira de onde se findou todo o sentido.
Toda a essência.
Mas, ainda...
...sou tanto!
Quanta coisa distorcida,
E refeita.
Desmontada,
E reconstruídas.
Todas essas visões revisitadas,
Os sentidos...!

Essas mãos habilidosas que
Tecem, as teias, os dramas.
Essas almas contando estórias,
Essas fábulas sem moral.
Versos ritmados
Do que é pitoresco.
Burlesco, exagero.
Cadência, ahn, gira, gira
A ciranda.
Vejo o mundo, então, afinal,
Só posso ser mundo,
Soletro-o!

[...]
Duas mãos em concha
Que abrigam água fresca, límpida.,
A água, o elemento vital, o bálsamo,
Que gota,
A gota,
Esvai-se pelos
Longos
[e finos!]
dedos.