Dec 29, 2007

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Martin Munkacsi.




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Quer dizer, muito disso que a gente vive é feito de repetição. Diária, rotina, segunda-terça-quarta-quinta-sexta, lá ou cá, viajando ou em casa, de sofá e moletom grande, a tv ligada mas sem som, a tv moderna muda, imagens refletidas na sala. Somos todos repetitivos, exaustivos por isso, mas por mais que tal repetitividade remeta imediatamente à "chatice", sem elas somos incapazes de existir. Eu sou.

Todo o dia o "viagra social" (paroxetina das genéricas, azuizinhas, inclusive). Todo o dia o anticoncepcional caro e de dosagem baixa de hormônios pra não inchar, ter tpms estrondosas e me aurar de espinhas purulentas. E ai de mim se um belo dia me revoltar contra minha medicação. No mínimo terei uma crise depressiva por falta de neurotransmissores e odiarei ao mundo, à vida e à existência, e até à arte, sem nenhuma razão aparente. No máximo terei um filho, com tudo que é um filho, o imensurável de gerar uma vida que, se mesmo dependente à própria, é alheia. Certas vezes me pergunto se já não estou como um daqueles loucos institucionalizados tão recorrentes no cinema. Aqueles que entram na fila indiana afoitos pelo copinho de café plástico descartável contendo coloridas, pequenas e deliciosas pílulas.

Mas, claro, eu jamais domaria meus rompantes insanos e lúdicos ou minha loucura perene a base de repetição. Talvez até conseguisse, se tentasse e quisesse. Mas peço “oxalá!”, me livre e guarde. Se os dias jamais me surpreendessem e toda a minha vida fosse de disciplina e rotina feito a exigência de meus remédios eu já estaria morta. É um conceito interessante pra morte, não? Uma coisa eterna e cíclica, hoje-ontem-amanhã não existem, são o mesmo e não são.

Se a metade mais um, uma maioria pequena da vida é do que certamente se fará sempre e desprovida de qualquer rota possível de fuga - das funções vegetativas às manias - há a metade menos um é do que pode ser novo. Pode, é só uma possibilidade. Na verdade é uma escolha. Pode-se abrir os sentidos, os olhos, os ouvidos, sentir e aprender e observar atento a novidade. Pode-se até abocanhá-la de uma só vez. Mas em oposto, completo oposto, há a reclusão, a soberba, o medo e a maldade de espírito, as mesquinharias bem pequenas e vermelhas. E se elas estiverem no recinto, o novo nem bate à porta, nem chega em frente ao portão. O novo é necessário, alguns o sabem outros o ignoram. O novo quer ser bem recebido, quer atenção. O novo é indispensável pros aventureiros, ainda bem que existe gente que se alimenta de reciclagem e aventura.

O mais fascinante de tudo é que mesmo que a novidade seja geniosa quanto ao estado do espírito que irá recebê-la, ela também é simples e gosta de dar as caras exatamente no que é visto, feito ou vivido todo o santo dia. Uma flor de nova cor, as pétalas numa abertura um tanto tímida, a formosura plena ainda por vir...; é sempre novo. Um mesmo beijo não é compartilhado quando se tem amor, amor intenso e completo como só pode ser o amor quando é amor, os amantes trocam carícias pelos lábios que são sempre descobertas, as sensações de arrepio sempre novas. Uma poesia relembrada na memória agora mais cheia e cheia de coisas e vivências não é a mesma poesia, as palavras saltitam e alcançam diferentes lugares do corpo, da mente, da língua. Uma sobremesa pode ter até a mesma dosagem e os mesmos ingredientes da outra que se experimentou na semana passada, creme de leite, biscoito e chocolate, mas o carinho e trabalho de quem a preparou certamente trará sabores novos às papilas. E também o vinho, o suco, o almoço que seja de arroz e feijão. A vida se desabrocha, a novidade é como ondas de cor no ar, que só consegue ver quem quer. Um mesmo rio não é visto duas vezes.

Dec 14, 2007

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a uma pequena que destila traquinagem, pequena com brasa nos dedos e nos pés, que saltita pelo mundo, bonita e faceira e me faz sentir saudades.



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Ahn, pequena, tu mereces um consolo. Se eu pudesse, encontraria alguns na relva, colheria sentenças reconfortantes, as cataria nas ramagens mais altas ou no meio da vegetação mais densa. Mas sequer as tenho mentalmente, para que eu possa soletrá-las, que seja, inaudível. Eu só posso ser ombro e ouvido agora, não voz. Que poderia eu dizer-te? Que esse mundo que se apresenta duro e cruel pode ser também divertido? Tu já o deves saber. Mas posso te falar que há extremidades longínquas dos dois lados, duas faces eqüidistantes e proporcionais, que são - e ao mesmo tempo não - da mesma coisa. Mas o sofrimento pode não ter fim, não, sofrer não encontra limites ou barreiras. É um estado amplo e pleno onde se só chega por querer, se sabe o caminho. Quem é que escolheria sofrer?

E eles levarão tua alma dia após dia, te pegarão cansada e desprevenida e mesmo assim, com todo o despudor, te chutarão em cheio nos rins. Eles nunca têm alma, semblante ou uma característica sequer que se possa recordar. Mas hora ou outra, entre um chute, entre uma pedrada, entre uma peça pregada pela vida, armam-se os espetáculos. Vê os vira-latas na rua, como cheiram as partes podidas uns dos outros curiosamente e como logo brincam e correm e rolam. Os bêbados, porque eles sempre gesticulam pro nada? Estão dançando nas calçadas, atirados na esquina, ébrios, rindo, talvez de quem passa cabisbaixo e sóbrio. Os homens altos de birita flutuam, voam no céu, enquanto todos acham que eles estão cambaleando no chão.

Talvez tu possas vir a saber demais – o que, embora gratificante, é também doloroso – talvez de menos, o que de certa forma é uma bênção. O fato é que cada novidade - tempestiva ou fortuita - te será de lição. Há lubrificantes pras mais pesarosas, toma um cigarro, bebe um gole. Gostaria de te dizer que isso sempre funcionará. Seria tudo mais fácil, inclusive. Mas as engrenagens sempre tendem a endurecer. A enferrujar. E outra ou outra os paliativos que untam e lubrificam a massa toda ficarão pastosos, um ranço na boca que Baco não quer abençoar. Bebe assim mesmo, engole. Acredito firmemente que é necessário se estar bons tempos bêbado, não importa se de cachaça ou amor. É quando a vida é tão trêmula que te embaça a visão, quando o mundo gira tão alto que tu te sentes tonto. E o alcalóide e o prazer. Medi-lo? Não há como. Nem evitar. E não queira abdicar dos seus prazerezinhos de fim de tarde, os rotineiros, aquelas vicissitudes que a gente cultiva a vida toda em nome de um ideal maior. Ao menos pensa-o e remoe-o bem antes de fazê-lo. Os nobres ideais andam sumidos, quase inexistentes. Dos que restaram, uma parte é caquética como veteranos de guerra idosos e enlouquecidos, querendo resolver as coisas de seu modo bruto – vivendo num mundo a parte, degenerados pelo tempo e carentes e razão – uma ideologia que nem convence, mas a outra, embora travestida de novos ares e que até pode vir a impressionar é só aquilo que já se foi e que deveria estar abaixo da terra juntamente do passado à qual pertence. Melhor mesmo é tratar de formular um próprio ideal, um “auto”, que te pertença e condiga exatamente aos seus anseios, nem mais e nem menos. Algo teu. A tua vida te pertence, dessa forma, suas crenças também devem partir de ti.

Só posso te dizer pra conservar o que é bom. A beleza apodrece, a beleza desmancha, a beleza se desfaz em pelancas e tristeza. Os frutos tenros são passageiros, a maturidade os torna moles. Todavia há memória grande pro que há de imutável. Há quimera, música, dança, cena, poema, flor. Há satisfação em algumas coisas. Mesmo que falem sem parar aos ouvidos, mesmo que te aborreçam e te entristeçam, que fofoquem camelices, não leiam jornais nem livros, não sintam o cheiro da terra molhada, da tarde de ensolarada e nem o queiram, mesmo que não parem pra olhar o céu, descobri-lo, ou mesmo, nos exageros, que todo e qualquer humano te pareça monstruoso dia ou outro, ainda há gente que fascina, encanta e nos faz querer estar perto [ou até mais perto se perto, se me entendes]. Conversas bacanas, algumas bem leves, outras que conseguem transformar brisa branda em chumbo. Gente que faz bem, que faz mal, mas mais bem que mal. Não é balança. Jogar fora o que passou e ficar com os lucros, se houver algum. Há gente que prefere sonhar ao invés de afundar na maré. Gente que sabe consolar quando é necessário.

...Eu não sei. Serve-te meu colo, meu ombro, minha pele bem pressionada contra a tua? Posso te dar uma tarde também, passearemos e falaremos coisas que ninguém entende. Um vocabulário nosso, os risos também são verbetes e uns diferem dos outros, cada qual com seu significado.

Há dor e poucas vezes contorno. Há curvas, turbulências. Há tardes que chove e que não se encontra nada pra fazer. Há tédio, náusea, lástima, dureza. Mas força, pequena, há arco-íris no céu depois da chuva, há vaga-lumes aparecendo e desaparecendo, indo prum mundo que não se pode pensar, só idealizar de relance. Pra onde vai a luz enquanto os pontos piscam?

Há coisas que não mudam nunca e outras que sempre mudam. Por exemplo: se o formato de meu ventre, se meu colo e meus braços perderem a forma, ficarem pálidos e tristes, sem vigor, mesmo assim, mesmo completamente diferentes dos que já foram, eles sempre serão abertos e esperarão que você se delineie e se enfie embaixo deles. É como um canto de mundo que você já possui, já conquistou. E que lhe será sempre disponível. Todo o inominável sempre.